"AO CONTRÁRIO DE MUITOS, NÃO NEGOCIAMOS A PALAVRA DE DEUS VISANDO A ALGUM LUCRO; ANTES, EM CRISTO FALAMOS DIANTE DE DEUS COM SINCERIDADE, COMO HOMENS ENVIADOS POR DEUS". 2 Coríntios 2. 17



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

* Epístolas Aos Romanos

EPÍSTOLA DE PAULO AOS ROMANOS


 Romanos é a mais longa e teologicamente mais significativa das cartas de Paulo, o mais puro evangelho. A epístola é endereçada aos cristãos em Roma.

  O objetivo de Paulo estava focado na vida, morte e ressurreição de Cristo.

 Tanto a abertura da carta (1.1) como os detalhes biográficos registrados nos caps. 1;15-16 mostram que a Epístola aos Romanos foi escrita pelo apóstolo Paulo. A carta já era citada e catalogada como sendo de Paulo durante o século II. Sua autenticidade raramente tem sido disputada, e nunca de maneira convincente.

  Romanos é a maior, mais rica e mais abrangente declaração da parte de Paulo sobre o evangelho. Suas declarações condensadas sobre verdades imensas são como molas retraídas- quando são liberadas, elas voam pela mente e pelo coração até encherem o horizonte do indivíduo e moldarem a sua vida. João Crisóstomo, o maior pregador do século V, pedia que Romanos lhe fosse lida em voz alta uma vez por semana. Agostinho, Lutero e Wesley, três figuras extremamente importantes para a nossa herança cristã, todos viram à firmeza da fé através do impacto de Romanos em suas vidas. 

 Todos os reformadores viam Romanos como sendo a chave divina para o entendimento de toda a Escritura, já que aqui Paulo une todos os grandes temas da Bíblia – pecado, lei, julgamento, destino humano, fé, obras, graça, justificação, santificação, eleição, o plano de salvação, a obra de Cristo e do Espírito, a esperança cristã, a natureza e vida da Igreja, o lugar do judeu e do não- judeu nos propósitos de Deus, a filosofia da Igreja e a história do mundo, o significado e a mensagem do Antigo Testamento, os deveres da cidadania cristã e os princípios de retidão e moralidade pessoal. Romanos nos abre uma perspectiva através da qual a paisagem completa da Bíblia pode ser vista e a revelação de como as partes se encaixam no todo se torna clara.

    O estudo de Romanos é vitalmente necessário para a saúde e entendimento espiritual do cristão.

    Capítulo 1.1-7

1. Paulo, servo de Jesus Cristo, escolhido para ser apóstolo, reservado para anunciar o Evangelho de Deus;
2. este Evangelho Deus prometera outrora pelos seus profetas na Sagrada Escritura,
3. acerca de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, descendente de Davi quanto à carne,
4. que, segundo o Espírito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por sua ressurreição dos mortos;
5. e do qual temos recebido a graça e o apostolado, a fim de levar, em seu nome, todas as nações pagãs à obediência da fé,
6. entre as quais também vós sois os eleitos de Jesus Cristo,
7. a todos os que estão em Roma, queridos de Deus, chamados a serem santos: a vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo!

  Quando escreveu Romanos, Paulo analisava o seu ministério e via que se encontrava em um ponto crucial. Acreditava que tinha concluído o seu ministério no Leste do Mediterrâneo (15.17-23) e  que o tempo era apropriado para a sua jornada ao Oeste para a evangelização da Espanha (15.24). Esperava visitar os cristãos romanos no caminho, realizando um projeto de longa data e,talvez,  ganhando a ajuda deles como igreja de apoio (15.24). Esperava visitar os cristãos romanos no caminho, realizando um projeto de longa data e, talvez, ganhando a ajuda deles como igreja de apoio (15.24).

 Ao escrever Romanos, Paulo também estava profundamente atento ao fato de que a igreja cristã deveria ser uma comunhão entre judeus e gentios, juntos na unidade do corpo de Cristo. Isto se torna claro pela importância que dá à oferta gentia para a igreja de Jerusalém. Também vem à tona em todo o livro o tema da unificação do judeu e do gentio- unidos no pecado, por causa de Adão, e na graça, por meio de Jesus. A justiça salvadora do evangelho é uma necessidade de ambos, já que todos pecaram; pode ser recebida pelos dois, já que vem pela graça por meio da fé. A operação desta justiça salvadora não de história é a pista para os propósitos finais de Deus para ambos- judeus e gentios; e essa justiça salvadora deve ser expressa na vida dos dois- pessoal, comunitária e socialmente- no corpo de Cristo, como o novo povo de Deus.

ROMA

Os mais antigos dados históricos que existem hoje sobre as origens da cidade de Roma remontam ao séc. VIII a.C. Naquela época, começaram a povoar-se as sete colinas vizinhas ao rio Tiber, sobre as quais, em um futuro ainda longínquo, haveria de erguer-se a capital do mundo então conhecido.

Aqueles primitivos assentamentos humanos cresceram pouco a pouco, uniram-se entre si, estabeleceram princípios de convivência e assentaram as bases que um dia conduziriam à instauração de um sistema de governo coletivo, conforme o modelo de república que caracterizou Roma entre os séculos VI e II a.C.

À medida em que se afirmava a unidade do Estado, crescia a sua capacidade econômica e militar, de onde se derivou também um forte anseio de possessão territorial que impeliu Roma à conquista de países e à sujeição de pessoas de muitas nacionalidades e línguas diferentes. Com o passar dos anos, se fez dona de toda a bacia do mar Mediterrâneo e dos seus territórios circunvizinhos e ainda muito mais além.

Na época de Jesus, a república de Roma havia se transformado em império. E foi em pleno coração daquele Império Romano, em parte admirável e em parte cheio de conflitos e moralmente degradado, onde surgiu a igreja para a qual o apóstolo Paulo escreveu esta epístola, sem dúvida a mais importante das suas do ponto de vista teológico.

PROPÓSITO

A Epístola de Paulo aos Romanos (Rm) tem enriquecido o testemunho de gerações de crentes ao longo da história. A profundidade de pensamento do autor põe em destaque a sua confiança na graça de Deus e manifesta a sua vocação e o fervor que o anima; um fervor evangelizador que inspirou acontecimentos decisivos para a história e a cultura da humanidade.

Quando o apóstolo Paulo redigiu esta epístola, a mais extensa de todas as suas, ainda não tivera oportunidade de visitar os crentes residentes em Roma (1.10-15). Contudo, a extensa lista de saudações do cap. 16 parece provar que já naquela época contava com não poucos relacionamentos e afetos entre aquele grupo de homens e mulheres que, em pleno coração do império, haviam sido “chamados” para serem “de Jesus Cristo” (1.6). Não obstante, é esse conhecimento que e o apóstolo demonstra ter de muitos crentes de uma igreja que nunca havia visitado que tem levado alguns estudiosos a pensarem que o cap. 16, originalmente, não fizesse parte desta carta.

Julgam que pode pertencer a outra, possivelmente dirigida a Éfeso, onde Paulo havia estado em mais de uma ocasião e, pelo menos uma vez, durante um longo período de tempo (ver a Introdução a Efésios).

Paulo, muitas vezes, havia se proposto a viajar para Roma (1.9-10,13,15; 15.22-23), para ali anunciar o evangelho (1.15) e repartir com os irmãos “algum dom espiritual”, para que reciprocamente se confortassem “por intermédio da fé mútua” em Cristo (1.11-12). Mas é agora, ao considerar a Espanha como campo do seu imediato trabalho missionário, que vê chegar também a oportunidade de realizar a desejada visita (15.24,28).

Nessas circunstâncias, o apóstolo pareceu entender que a sua presença em Roma contribuiria para superar algumas tensões que estavam surgindo na igreja. Passagens como 11.11-25 e 14.1—15.6 revelam que pairava sobre a comunhão fraternal um sério perigo de divisão, por causa de rivalidades surgidas entre crentes de procedência diferente: uns do Judaísmo e os outros do paganismo (cf. a este respeito At 6.1; Gl 1.7; 2.4).

DATA E LUGAR DE REDAÇÃO

Esta epístola foi escrita, provavelmente, por volta do ano 55, durante uma permanência de Paulo na cidade de Corinto. Tanto pelo seu conteúdo como pelas suas características literárias, se assemelha à epístola enviada às igrejas da Galácia. As duas pertencem à mesma época e revelam interesses doutrinários semelhantes. O que não se sabe é qual delas foi escrita primeiro. Por isso, alguns veem em Romanos uma exposição ampliada, muito refletida e serena, da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que Gálatas é uma espécie de síntese polêmica e veemente da epístola aos Romanos.

De qualquer forma, ambos os escritos devem ser considerados a partir de uma perspectiva comum, posto que, em definitivo, se trata da transmissão de uma mesma mensagem que inclui conceitos fundamentais idênticos: o domínio do pecado sobre todos os seres humanos (Rm 1.18—2.11; 3.9-19, cf. Gl 3.10-11; 5.16-21), a incapacidade da Lei de Moisés para salvar o pecador (Rm 2.12-29; 3.19-20; 7.1-25, cf. Gl 2.15-16; 3.11-13,21-26), a graça de Deus revelada em Cristo (Rm 1.16-17; 3.21-26, cf. Gl 2.20-21; 4.4-7), a justificação pela fé (Rm 3.26-30; 4.1—5.11, cf. Gl 2.16; 3.11,22-26; 5.1-6) e os frutos do Espírito (Rm 8.1-30, cf. Gl 5.22-26).

CONTEÚDO E ESTRUTURA

Quanto à estrutura literária, Romanos se divide em duas partes principais: a primeira é propriamente doutrinária (1.16—11.36); a segunda, de exortação (12.1—15.13). Contém, além disso, uma introdução rica em conceitos teológicos (1.1-15) e uma conclusão que completa o texto com um grande número de notas de caráter pessoal (15.14—16.27).

Os temas tratados em Romanos são teologicamente densos, mas Paulo os expõe de um modo ameno e torna fácil a sua leitura introduzindo vários recursos estilísticos: diálogos, perguntas e respostas, citações do Antigo Testamento, exemplos e alegorias. A seção doutrinária é a mais extensa. Paulo reflete sobre o ser humano, dominado pelo pecado e incapaz de salvar-se pelo seu próprio esforço. Afirma, como o salmista (cf. Sl 14.1-3; 53.1-3), que todos, tanto judeus como gentios, “pecaram e carecem da glória de Deus” (3.23); que somente Deus pode salvar os pecadores e que o faz por pura graça, “mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (3.24).

O tema da fé e a sua importância para a reconciliação do pecador com Deus se estende de 3.21 a 4.25. Em uma linguagem jurídica magistralmente utilizada, o apóstolo introduz termos como “lei”, “mandamento”, “transgressão”, “justificação”, “graça” e “adoção”. Mas os apresenta sob a nova luz da liberdade e paz oferecidas em Cristo ao pecador que se arrepende, com quem Deus quis estabelecer um definitivo relacionamento de amor e de vida (5.1—8.39).

Os caps. 9 a 11 constituem uma unidade temática que se destaca do resto da epístola. Aqui, Paulo nos revela a sua íntima preocupação porque Israel não chegou a compreender que “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (10.4). No entanto, o apóstolo está convencido de que Deus nunca abandonará o seu povo escolhido (11.1-2), visto que “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (11.29). Israel será restaurado (11.25-28), porque Deus terá misericórdia dele como também teve dos gentios (11.11-24,30-32).

A segunda parte de Romanos começa em 12.1. É uma exortação para viver segundo a lei do amor, um apelo à fé e à consciência cristã. Todo crente é chamado a pôr em prática essa lei, seja dentro de uma congregação de fiéis (12.3-21; 14.1—15.13), seja nos relacionamentos com a sociedade civil (13.7-9) ou com as autoridades e altas magistraturas do Estado (13.1-7).

A fé deve manifestar-se na autenticidade do amor. Portanto, a fé se opõe a qualquer atitude de soberba pessoal ou coletiva. A jactância e o menosprezo ao próximo não correspondem com a solidariedade, que resulta do amor e dá testemunho dele (12.1—15.13).

A partir de 15.14 até 16.27 se desenvolve o epílogo da epístola. É uma extensa e cativante relação de observações pessoais, recomendações e saudações dirigidas a uma série de fiéis, de muitos dos quais se faz constar as virtudes que os adornam. Paulo une às suas as saudações de alguns dos seus colaboradores, como Timóteo e Tércio, que escreveu a epístola, e também de alguns parentes, como Lúcio, Jasom e Sosípatro (16.21-22). O cap. 16 não registra somente saudações e recomendações, mas dedica também as suas últimas palavras para animar os seus leitores e para afirmar a vitória reservada aos que confiam no poder de Deus (“E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás”, v. 20).

Finalmente, uma esplêndida doxologia encerra a epístola com chave de ouro (16.25-27).

ESBOÇO

Prólogo (1.1-15)
1.      Salvação somente pela fé (1.16—11.36)
2.      Anúncio do tema: O justo viverá pela fé (1.16-17)
3.      A indesculpável pecaminosidade humana (1.18—3.20)
4.      Justificação mediante a redenção efetuada por Cristo (3.21—4.25)
5.      A nova vida de liberdade do justificado pela fé (5.1—8.39)
6.      A incredulidade de Israel (9.1—11.36)
7.      Exortações: A justificação pela fé aplicada à nova vida (12.1—15.13)
8.      Em amor autêntico (12.1-21)
9.      Em submissão às autoridade instituídas por Deus (13.1-14)
10.  Sem menosprezo ao irmão mais fraco (14.1—15.13)
11.  Epílogo (15.14—16.27)
12.  Os planos evangelísticos do apóstolo (15.14-33)
13.  Saudações, recomendações e doxologia final (16.1-27)


CIRCUNSTÂNCIAS GERAIS

1.PAULO

   Paulo nos fornece em 15.14-29 alguns detalhes sobre as próprias circunstâncias em que vivia na época. Ele está a caminho de Jerusalém, onde pretende entregar á igreja judaica o dinheiro que coletou  das igrejas missionárias gentílicas. De Jerusalém Paulo pretende viajar à Espanha a fim de iniciar uma nova obra evangelística no local. A caminho da Espanha, o apóstolo planeja fazer uma escala em Roma. Se compararmos esses planos à narrativa de Lucas em Atos, podemos concluir que Paulo escreveu Romanos no final de sua terceira viagem missionária, provavelmente  durante sua estadia de três meses na Grécia (At 20.3-6). Paulo, sem dúvida, passou a maior parte desse tempo em Corinto (2 Co 13.1,10), e a confirmação indireta dessa cidade como o local onde a carta aos Romanos foi escrita vem da recomendação que Paulo faz de Febe, uma irmã que servia na igreja de Cencreia, cidade portuária ao lado de Corinto (16.1,2). 

    Essa estadia em Corinto provavelmente ocorreu em 57 d.C., embora possa ter ocorrido um ano antes ou depois.

  Um fator de certa importância para nossa compreensão de Romanos é a indicação que Paulo faz nesses versículos de que tinha chegado a um ponto crucial em sua carreira missionária. "Não tendo já campo de atividade nestas regiões", isto é, no Mediterrâneo Oriental (15.23), Paulo havia decidido pregar na Espanha. 
   Com o estabelecimento de igrejas vigorosas "desde Jerusalém e circunvizinhanças até o Ilírico" (15.19), Paulo acreditava  que a obra que Deus lhe tinha confiado - plantar igrejas estratégicas por meio das quais o evangelho poderia ser proclamado - fora concluída nessa região. 

  Assim como os pioneiros americanos sentiam que já havia muita gente em determinados locais e partiam para onde quer que vissem a fumaça de alguma cabana, Paulo também sentiu que já havia cristãos demais onde ele estava ministrando, e decidiu ir àqueles que chamaríamos hoje de "povos não alcançados".

 2.A IGREJA EM ROMA

 Algumas das tradições mais antigas trazem Pedro como o fundador da igreja de Roma, mas isso é improvável. É possível que peregrinos judeus vindos de Roma, que se converteram com a pregação de Pedro no dia de Pentecostes, tenham sido os que levaram o evangelho à grande população judaica da capital ( Lucas observa em Atos 2.10 que havia judeus de Roma presentes naquele dia). Como em tantas outras cidades, os judeus de Roma não abraçaram o novo ensino messiânico. O historiador Suetônio observa que o imperador romano Cláudio expulsou todos os judeus de Roma "porque, instigados por Chrestus, eles estavam constantemente promovendo desordens" (vida de Cláudio, 25.2). É quase certo que ele estava se referindo às discussões violentas entre a comunidade judaica sobre as alegações dos cristãos de que Jesus era o "Cristo" (no grego, Christos), nome aqui corrompido para "Chrestus". Assim, essa expulsão dos judeus teria incluído os  judeus cristãos, como o próprio Lucas deixa implícito quando menciona que foi por causa desse edito de Cláudio que Priscila e Áquila tinham vindo para Corinto (At 18.2).

  A expulsão (que provavelmente ocorreu em 49 d.C.), teria tido  um efeito significativo  sobre a constituição da comunidade cristã em Roma: os gentios, que até esse ponto eram a minoria dos fiéis, foram agora deixados como os únicos cristãos na cidade. Portanto, ainda que estivesse autorizada a volta dos judeus a Roma na época em que Paulo escreveu aos romanos - Priscila e Áquila, por exemplo, tinham voltado (Rm 16.3,4) - os gentios é que eram maioria na igreja, e davam o tom tanto na liderança quanto na teologia. 

  GÊNERO LITERÁRIO 

  As cartas antigas variam de breves cartas, passando por escritos mais íntimos endereçados a membros da família até tratados elaborados, destinados a uma plateia numerosa. Entre as cartas de Paulo, Romanos é claramente a mais próxima do último tipo.

  Assim, embora Romanos tenha a abertura e a conclusão típicas de uma carta (1.1-15 e 15.14-16.27), sua característica mais marcante é a sua consistente argumentação teológico-pastoral em 1.16 ;11.36. Em nenhum ponto dessa longa seção Paulo se dirige diretamente  aos cristãos de Roma por si mesmos ou sugere que as questões que discute foram levantadas por eles. E isso é verdade mesmo no trecho da carta de caráter mais "prático" como 12.1-15.13 (embora seja provável que os apelos aos "fortes" e "fracos" em 14.1-15.13 reflitam um verdadeiro problema da igreja em Roma). A dinâmica da carta é ditada pela lógica interna do evangelho e não por questões locais. Isso não significa que Paulo escreveu a carta num vácuo: Romanos não é um tratado teológico atemporal, mas sim uma carta, escrita para uma igreja específica em uma situação específica. Romanos, como todas as demais cartas de Paulo, é um documento  criado para uma ocasião específica. Não devemos esquecer os destinatários que ele tinha em mente quando a escreveu. O caráter da carta deixa claro, ao mesmo tempo, que a ocasião que deu origem à sua redação deve ter sido a necessidade de abordar certas questões teológicas de relevância para os cristãos da igreja primitiva em geral - e para todos os cristãos desde então.

 Estudiosos têm tentado ocasionalmente uma identificação mais precisa da natureza de Romanos, comparando-o a tipos específicos de cartas de outras literárias do mundo antigo. Embora essas tentativas muitas vezes tenham esclarecido certas características específicas de Romanos, nenhuma delas pode ser tomada como uma  identificação aceitável da carta como um todo.  Como James Dunn conclui: "O caráter distintivo da carta excede em muito a importância da sua conformidade com as práticas literárias ou retóricas da época" (Romans 1-8 [Word Books, 1988]).


PROPÓSITO 

  O estilo de "tratado' de Romanos sugere uma pergunta crítica acerca da carta: por que Paulo escreveu essa carta específica para essa igreja em particular? Ele diz pouco sobre seu propósito  ao escrevê-la, por isso nossa resposta a essa pergunta deve se basear na análise que fizermos do conteúdo  da carta em face das circunstâncias gerais em que foi escrita (v. acima). As respostas mais provável podem ser agrupadas em duas categorias principais: aquelas cujo foco está na própria situação de Paulo e aquelas cujo foco está na situação dos cristãos romanos.

1. FOCO NA SITUAÇÃO DE PAULO

 Três possibilidades devem ser mencionadas. A primeira, que Paulo pode ter escrito para se apresentar aos romanos e explicar aquilo em que ele acreditava, com a finalidade de obter apoio para sua missão na Espanha. Segunda, sabendo que visitaria Roma em breve, Paulo pode ter aproveitado esta oportunidade para colocar por escrito suas próprias conclusões doutrinárias. Afinal, o apóstolo tinha acabado de sair de um conflito teológico e pastoral difícil com a igreja de Corinto, e tinha chegado a um ponto crítico em seu próprio ministério. Que oportunidade poderia ser melhor para refletir sobre suas próprias convicções teológicas e concretizá-las por escrito? Uma terceira possibilidade é a de que nessa carta aos Romanos Paulo aproveitou a oportunidade para ensaiar o discurso que faria quando chegasse a Jerusalém  com o dinheiro da coleta. Certamente essa visita a Jerusalém estava há muito tempo presente na mente de Paulo, e as tensões entre cristãos judeus e gentios, que ele esperava solucionar por meio da coleta, poderiam muito bem explicar por que a carta aos Romanos se concentra tanto em questões relacionadas a Israel e à lei. 

 Provavelmente cada um desses fatores teve seu papel no propósito de Paulo em escrever essa carta. Mas apenas o primeiro explica por que ela foi enviada especificamente para Roma, e a esse fator, portanto, devemos dar uma atenção especial. Mas, antes de tirarmos conclusões, devemos observar outra abordagem sobre a questão do propósito.

 2. FOCO NOS PROBLEMAS DA IGREJA EM ROMA

  F.C. Baur, crítico bíblico do século XIX, deu início a uma nova abordagem à carta aos Romanos ao enfatizar que, como as outras cartas de Paulo, essa fora escrita para tratar de problemas específicos no interior da comunidade cristã romana. Muitos estudiosos contemporâneos concordam,encontrando o objetivo geral da carta particularmente nas admoestações de Paulo aos "fortes" e "fracos" (14.1-15.13). Sob essa ótica, Paulo escreveu com o intuito  de acabar com uma divisão no seio da igreja em Roma. A divisão era especificamente entre os cristãos gentios (os "fortes") e os cristãos judeus (os "fracos"), e isso explica por que Paulo gasta tanto tempo na carta expondo cuidadosamente sua teologia no que diz respeito a esses dois grupos.

   O desejo de acabar com essa divisão na igreja romana foi provavelmente um dos propósitos de Paulo ao escrever, mas não o propósito principal. Teria Paulo adiado o momento de mencionar algo relativo ao seu propósito principal até que a carta estivesse quase terminada? Não deveríamos esperar que ele fizesse aplicações de suas discussões teológicas a esse problema ao longo da carta, se isso ocupava tanto seu pensamento?

  Portanto, parece que Paulo escreveu Romanos com uma série de propósitos em mente. Provavelmente o principal objetivo fosse seu desejo de se apresentar à igreja em Roma, anunciando o evangelho que ele pregava. Isso era especialmente importante porque falsos rumores sobre o que Paulo pregava haviam chegado até os romanos (cf. 3.8). Ele aparentemente tinha conquistado na igreja primitiva a reputação de ser contrário à lei e aos judeus. Paulo tentou mostrar que não era esse o caso (v. especialmente 1.16;7.7-12; cp. 9-11), ao mesmo tempo em que explicou de forma pormenorizada em que sentido ele era crítico dos judeus e da lei mosaica (v. particularmente  2.17 - 3.20; cap. 7). Esses mesmos temas teriam sido debatidos em Jerusalém e eram cruciais para alguns dos debates da igreja em Roma. Em outras palavras, nós temos em Romanos uma série de propósitos, todos convergindo para questão que predomina em toda a carta: de que natureza é a continuidade que existe entre as disposições de Deus na antiga aliança e suas disposições na nova aliança? Qual é a relação entre a lei e o evangelho, entre os cristãos judeus e os cristãos gentios, entre Israel e a igreja? O desejo de Paulo é abordar essa questão teológica central e permanente que confere a Romanos seu caráter universal singular.

Referências:

Bíblia de Estudo Arqueológica 
Bíblia Ilúmina
Comentário Bíblico Vida Nova


QUADRO CRONOLÓGICO DA VIDA, MINISTÉRIO E DA MORTE DE PAULO

Entre 1 a.C e 5 d.C – Nascimento em Tarso
20-26 – Vida como judeu zeloso, da seita dos fariseus
32 d.C. - Vida como perseguidor da igreja
34-35 d.C. Ou antes – Conversão
35-37 – Ministério em Damasco e na Arábia
37- Primeira visita a Jerusalém
37-45- Ministério em Tarso e na Cilícia.
45-47- Visita de socorro aos famintos
46,47-48- Primeira viagem missionária
48-49- Concílio apostólico
48-51- Segunda viagem missionária
52-57- Terceira viagem missionária
57-59- Prisão em Cesaréia
59-60- Viagem a Roma
60-62- Prisão em Roma
62-64- Ministério no Oriente
64-65- Morte

 COMENTÁRIO BÍBLICO DE ROMANOS em PDF/ Dr.BOB UTLEY 


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♛ Uma das características mais recorrentes das homilias de João Crisóstomo (347-407) é sua ênfase no cuidado com os necessitados. Ecoando temas do Evangelho de Mateus, ele exorta os ricos a abandonarem o materialismo para ajudar os pobres, empregando todas as suas habilidades retóricas para envergonhar os ricos e obrigá-los a abandonar o consumismo mais conspícuo:


“Honras de tal forma teus excrementos a ponto de recebê-los em vasilhas de prata quando outro homem criado à imagem de Deus está morrendo de frio?”


— João Crisóstomo