"AO CONTRÁRIO DE MUITOS, NÃO NEGOCIAMOS A PALAVRA DE DEUS VISANDO A ALGUM LUCRO; ANTES, EM CRISTO FALAMOS DIANTE DE DEUS COM SINCERIDADE, COMO HOMENS ENVIADOS POR DEUS". 2 Coríntios 2. 17



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

* Cessacionismo / Definição

O CESSACIONISMO É BÍBLICO?

Pergunta: "O cessacionismo é bíblico?"

Resposta:O cessacionismo é a visão de que os "dons milagrosos" de línguas e cura cessaram, ou seja, que o fim da era apostólica trouxe um fim aos milagres associados a esse período. A maioria dos cessacionistas creem que, embora Deus possa e ainda faça milagres hoje, o Espírito Santo não mais usa indivíduos para realizar sinais miraculosos.

O registro bíblico mostra que os milagres ocorreram durante períodos específicos para a finalidade específica de autenticar uma nova mensagem de Deus. Moisés foi capaz de fazer milagres para autenticar o seu ministério diante do Faraó (Êxodo 4:1-8). Elias executou milagres para autenticar o seu ministério diante de Acabe (1 Reis 17:1; 18:24). Os apóstolos executaram milagres para autenticar o seu ministério diante de Israel (Atos 4:10, 16).

O ministério de Jesus também foi marcado por milagres, chamados pelo Apóstolo João de "sinais" (João 2:11). O ponto de João é que os milagres eram provas da autenticidade da mensagem de Jesus.

Após a ressurreição de Jesus, à medida que a Igreja estava sendo estabelecida e o Novo Testamento estava sendo escrito, os apóstolos demonstraram "sinais", tais como línguas e o poder de curar. "Portanto, as línguas são um sinal para os descrentes, e não para os que creem; a profecia, porém, é para os que creem, e não para os descrentes" (1 Coríntios 14:22, um versículo que diz claramente que esse dom nunca teve a intenção de edificar a igreja).

O Apóstolo Paulo previu que o dom de línguas cessaria (1 Coríntios 13:8). Aqui estão seis provas de que já cessou:

1) Os apóstolos, por quem veio o dom de línguas, foram os únicos na história da igreja. Uma vez que o seu ministério foi finalizado, a necessidade de autenticar os sinais deixou de existir.

2) Os dons (ou sinais) de milagres só são mencionados nas primeiras epístolas, tal como 1 Coríntios. Os livros posteriores, como Efésios e Romanos, contêm passagens detalhadas sobre os dons do Espírito, mas o dom de milagres não é mencionado, embora Romanos mencione o dom da profecia. A palavra grega traduzida como "profecia" significa "proclamar" e não necessariamente inclui a previsão do futuro.

3) O dom de línguas foi um sinal para a descrente Israel de que a salvação de Deus estava agora disponível para outras nações. Veja 1 Coríntios 14:21-22 e Isaías 28:11-12.

4) O dom de línguas era um dom inferior ao da profecia (pregação). Pregar a Palavra de Deus edifica os crentes, ao passo que o dom das línguas não o faz. Os crentes são instruídos a buscar profetizar e não o falar em línguas (1 Coríntios 14:1-3).

5) A história indica que o dom de línguas cessou, pois os pais pós-apostólicos não o mencionaram de forma alguma. Outros escritores, tais como Justino Mártir, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho, consideravam o sinal de línguas como algo que aconteceu apenas nos primeiros dias da Igreja.

6) A observação atual confirma que o milagre de línguas cessou. Se esse dom ainda estivesse disponível hoje, não haveria necessidade de missionários frequentarem uma escola de línguas. Os missionários seriam capazes de viajar para qualquer país e falar qualquer língua fluentemente, assim como os apóstolos foram capazes de fazer em Atos 2. Quanto ao dom miraculoso de cura, vemos nas Escrituras que a cura era associada com o ministério de Jesus e dos apóstolos (Lucas 9:1-2). E vemos que à medida em que a era dos apóstolos chegou a um fim, a cura, como línguas, tornou-se menos frequente. O apóstolo Paulo, o qual ressuscitou Êutico dos mortos (Atos 20:9-12), não curou Epafrodito (Filipenses 2:25-27), Trófimo (2 Timóteo 4:20), Timóteo (1 Timóteo 5:23) ou a si mesmo (2 Coríntios 12:7-9). 


 As razões por que Paulo "falhou em curar" são: 1) o dom nunca teve a intenção de curar cada cristão, mas de autenticar o apostolado; e 2) a autoridade dos apóstolos tinha sido suficientemente provada, fazendo com que milagres adicionais fossem desnecessários.

Os motivos mencionados acima são provas do cessacionismo. De acordo com 1 Coríntios 13:13-14:1, faríamos bem em "buscar o amor", o maior dom de todos. Se buscarmos algum dom, devemos desejar pregar a Palavra de Deus para que todos sejam edificados.











Fiquei imaginando o que eu diria se fosse entrevistado sobre a cessação e a continuação dos dons espirituais mencionados na Bíblia, e daí nasceu esta sessão fictícia de perguntas e respostas. As perguntas estão em negrito e itálico.


Pastor Augustus, os dons espirituais cessaram?


Primeiro é necessário definir a que dons nos referimos. Acredito que o Espírito continua até hoje a conceder à Igreja a maioria dos dons mencionados na Bíblia. Mas, tenho a impressão que outros dons foram concedidos somente por um tempo a determinadas pessoas, para atender aos propósitos de Deus para aquela época. Estes não estariam mais disponíveis hoje. Por isto, é necessário, antes de qualquer coisa, esclarecer a que dons estamos nos referindo quando dizemos que os dons cessaram ou que continuam.

Outra coisa a ser levada em consideração é que, de acordo com a história bíblica, Deus não agiu sempre da mesma maneira em todas as épocas. Há muitas ações miraculosas e sobrenaturais que ocorreram somente uma vez ou durante um tempo específico e não foram repetidas. Portanto, por princípio, devemos admitir que Deus é soberano para agir de diferentes maneiras através da história, e que dentro desta ação, ele concede diferentes dons a diferentes pessoas em diferentes épocas. Assim, não podemos nem restringir a ocorrência de determinados dons somente a um período da história e nem requerer que todos os dons terão necessariamente de ocorrer em todos estes períodos.


Então, você não se definiria como um cessacionista?


Se por cessacionista você quer dizer uma pessoa que não acredita que o Espírito Santo conceda dons espirituais à sua Igreja nos dias de hoje, é claro que não sou cessacionista. Se, por outro lado, um continuísta seria alguém que acredita que todos os dons espirituais mencionados na Bíblia estão disponíveis hoje à Igreja, bastando ter fé para recebê-los, é claro que também não sou um continuísta. Creio num caminho intermediário para o qual ainda não achei um nome. Não posso ser chamado de cessacionista e nem de continuísta, pois creio que alguns dons continuam como eram no Novo Testamento, outros cessaram e outros continuam apenas em parte.


Bem, a discussão moderna gira mais em torno dos dons chamados sobrenaturais, como curas, línguas, profecias... se Deus é o mesmo hoje, ontem e eternamente, estes dons não estariam disponíveis hoje, como estavam na época dos apóstolos?


Poderíamos perfeitamente aplicar a estes dons e outros o princípio acima, de que Deus age de maneiras diferentes em épocas diferentes. Não podemos confundir a imutabilidade de Deus - que significa que ele não muda em seu ser e seus atributos - com a “mesmice” de Deus, que significa que ele sempre age da mesma forma. Teoricamente, ele poderia ter concedido os dons relacionados com curas, línguas e profecias a algumas pessoas durante o período apostólico e uma vez cessado aquele período, suspendido a atuação dos mesmos. Não vejo em que admitir isto afeta a imutabilidade de Deus ou diminui o seu poder e sua glória. Querer que Deus sempre atue da mesma maneira, isto sim, engessa Deus num padrão rígido e não admite que Ele tenha maneiras diferentes de agir em épocas diferentes para atingir seus propósitos.


Mas o que havia de tão especial no período apostólico para Deus conceder estes dons sobrenaturais?


Foi o período de transição entre a antiga e a nova alianças. Teve a ver com a vinda de Jesus Cristo ao mundo e o cumprimento de todas as promessas que Deus havia feito a seu povo pelos profetas de Israel. Foi a inauguração dos últimos dias, do fim dos séculos, da última hora e do fim dos tempos. Foi a época em que o Espirito prometido foi derramado. Deus levantou os Doze e Paulo para através deles explicar e registrar estes fatos no Novo Testamento. Era necessário, portanto, que o período mais importante da história da redenção fosse marcado por sinais, prodígios e maravilhas feitos por pessoas extraordinárias como os apóstolos e seus associados. 

 Era preciso deixar claro que era Deus quem estava por detrás daqueles acontecimentos e da mudança da aliança. Uma parte dos dons mencionados no Novo Testamento está relacionada diretamente com este período e com os apóstolos, como o dom de curar e fazer milagres e a profecia como veículo de novas revelações. O dom de línguas, aparentemente, estava também associado àquela época, como sinal externo da chegada do Espírito Santo aos diferentes grupos que compunham a Igreja em seu início (judeus, samaritanos, gentios e discípulos de João Batista). Mas, parece que ele servia a outros propósitos além deste mencionado. 


A questão é que estes dons aparecem em algumas das listas de dons espirituais do Novo Testamento como ferramentas do Espírito dadas a todos os crentes para edificar a igreja de Cristo. E agora?


Não vejo dificuldades. Estas listas aparecem em Efésios 4, Romanos 12, 1 Coríntios 12 (2 listas) e 1 Pedro 4. O que precisamos é definir com mais precisão o que significam cada um destes dons. O que significa, por exemplo, o dom de profetizar, que aparece nestas listas? Os crentes que tinham o dom de profetizar nas igrejas cristãs eram profetas iguais a Isaías e Jeremias, que foram capazes de predizer o futuro de Israel e das nações com incrível precisão? Ou será que os profetas cristãos se limitavam a edificar, exortar, consolar e instruir as igrejas, como Paulo diz em 1 Coríntios 11:3 e 31? E o que significa o dom de curar e de realizar milagres? Por que só encontramos este dom associado ao ministério dos apóstolos? 


 E por falar nisto, o que significa “apóstolo” na lista de Efésios 4?


  O termo pode significar tão somente enviados, missionários, sem qualquer relação com os Doze e Paulo. Infelizmente as pessoas não levam em conta que existem determinados aspectos da função do profeta, do ofício do apóstolo e mesmo do dom de línguas, os quais parecem estar relacionados somente àquela época. Se levarmos em conta estas coisas, podemos até dizer que todos os dons continuam hoje, mas que alguns aspectos ou atributos deles cessaram após o período dos apóstolos.


E qual seria então o critério para dizermos quais os dons que permanecem para os dias de hoje e quais os que cessaram?


Acredito que a regra de ouro é esta: todos os dons que foram veículos de novas revelações ou que estavam ligados diretamente aos instrumentos das revelações, que foram os apóstolos, cessaram com a morte deles. Ilustrando, o dom de profecia continua hoje, conforme entendo, mas somente enquanto exortação, consolo, confrontação pela Palavra. Já o aspecto revelatório da profecia que vemos, por exemplo, em João ao escrever Apocalipse, ou em Paulo e Pedro ao prever como será o futuro, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos, etc., isso certamente não faz parte da profecia hoje. Já cessou.

Da mesma forma o dom do apostolado. Se entendermos apóstolo como missionário, enviado das igrejas para pregar o Evangelho aos povos (é este o sentido básico do termo em grego), não vejo problemas em dizer que ainda hoje temos apóstolos entre nós, que são os missionários que vão desbravar campos ainda não atingidos pelo Evangelho. Mas, certamente não existem mais apóstolos no sentido dos Doze e Paulo, que viram o Senhor Jesus ressurreto, foram chamados diretamente por Ele pessoalmente ou numa aparição após a ressurreição, e que receberam não somente poderes extraordinários de curar e realizar milagres, como foram também veículos da revelação divina, tendo profetizado acerca do futuro de Deus para seu povo e o mundo. 

 E mais, seus escritos às igrejas foram inspirados pelo Espírito Santo, de forma que são infalíveis e inerrantes, sendo a própria Palavra de Deus. Obviamente, nenhum dos que se intitulam de apóstolo hoje tem estas credenciais. Portanto, não podem ser considerados apóstolos como Pedro, Tiago, João e Paulo. Este é um dos dons que permanece hoje somente em parte.


Por este critério o dom de línguas teria cessado também?


Não necessariamente, pois, até onde eu entendo, ele não era revelacional, isto é, não era veículo de novas revelações, como a profecia. Acredito que o relato de Atos e de 1 Coríntios 14 nos dão informações suficientes de que o conteúdo das línguas era o louvor a Deus (Atos 2:11; 10:46). O dom consistia na capacidade de louvar e exaltar as grandezas de Deus num idioma que a pessoa desconhecia, e que tinha de se traduzido para a edificação da igreja. Portanto, teoricamente, este dom não precisaria ter cessado pois não era revelacional. Todavia, temos indícios significativos da história da igreja de que ele cessou após o período apostólico. Na eventualidade de uma ocorrência genuína deste dom hoje, esperaríamos que fosse de acordo com as regras bíblicas de 1Coríntios 14: dois ou três falando, em sequência, e com interpretação. Como normalmente não é este o caso nas igrejas que dizem ter este dom, continuo tendo dúvidas de que o que está acontecendo nelas é a manifestação do genuíno dom de línguas. Mas, em tese, estou aberto para a ocorrência do dom genuíno.


Mas, então, isto quer dizer que os crentes que falam em línguas são mentirosos ou estão sendo influenciados pelo diabo?


Claro que não. Seria uma temeridade afirmar este tipo de coisa. Prefiro pensar que em boa parte das ocorrências são irmãos em Cristo sinceros que pensam estar de fato falando em línguas por terem sido ensinados desta forma dentro de determinados ambientes. Eles foram ensinados que falar em línguas é balbuciar palavras sem sentido num êxtase emocional. Há alguns que inclusive foram ensinados por seus pastores a como fazer isto, tipo “relaxe a língua, forme uma palavra desconhecida em sua mente e repita até que saia espontaneamente da sua boca...”


Não consigo perceber qual é o mal em se falar em línguas hoje nas igrejas. Qual o problema?


Se as línguas faladas não forem de Deus, a imitação delas deve trazer algum prejuízo ou perigo de natureza espiritual. Não posso afirmar ao certo, mas imagino que pode produzir arrogância, falsa espiritualidade, e abrir a porta para a atuação de demônios ou da natureza pecaminosa do homem. Na verdade, estes perigos estão presentes em qualquer manifestação que seja meramente humana, e não somente línguas.


Alguns diriam que você nunca falou em línguas porque nunca foi realmente batizado com o Espírito Santo...


Hehe, eu sei, já me disseram isto na cara, num congresso de irmãos pentecostais onde estive como visitante. Bom, a minha resposta é que acordo com Paulo todos os crentes verdadeiros já foram batizados com o Espírito Santo (1 Cor 12:13) mas nem todos falam em línguas (1 Cor 12:30). Se não for assim, terei de dizer que os reformadores e os grandes missionários da história da igreja nunca foram batizados com o Espírito Santo, pois nunca falaram em línguas. Todavia, se formos fazer uma comparação, eles fizeram mais pelo Reino de Deus do que estes que hoje insistem em dizer que as línguas são o sinal inequívoco do batismo com o Espírito Santo...


Mudando de assunto... Deus cura hoje?


Sem dúvida alguma. Eu mesmo já fui curado por Deus. Todavia é preciso fazer a diferença entre o dom de curar e as curas que Deus faz em resposta à oração. Aqueles que tinham o dom de curar - e parece que estava restrito aos apóstolos e seus associados - nunca falhavam. Cada vez que determinavam a cura, ela acontecia. Não há caso registrado de alguém com dom de curar, como Paulo e Pedro, terem comandado a cura que ela não tenha acontecido. E estamos falando da cura de cegos, coxos, aleijados, surdos e mudos, muitos dos quais nem tinham fé. E mesmo da ressurreição de mortos. Obviamente não apareceu depois dos apóstolos ninguém na história da Igreja, até os dias de hoje, com este mesmo poder. E estou falando de homens como Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley, Whitefield, Hudson Taylor, Spurgeon, Moody e outros homens de Deus, que não podem ser acusados de não terem fé ou de serem carnais.

Isso não quer dizer que Deus deixou de curar depois dos apóstolos. Ele cura sim, ao responder as orações por cura quando quiser. E nem sempre ele responde positivamente. Se fosse feita uma pesquisa, aposto que ela revelaria que existe proporcionalmente o mesmo número de doentes entre aqueles que dizem acreditar que o dom de curar existe hoje e aqueles que acham que já cessou. Isto é, vamos encontrar nos leitos dos hospitais proporcionalmente o mesmo número de membros doentes de igrejas que dizem ter o dom de curar e daquelas que não pensam assim.


Jesus disse certa feita que quem cresse nele faria os mesmos sinais que ele fez. Esta promessa é verdadeira ou não?


O que Jesus disse foi que eles fariam as mesmas obras. Ele não disse que fariam os mesmos sinais (ver João 14:12). Embora o termo “obras” possa se referir aos milagres dele, é mais provável que Cristo se referia à obra de evangelização e conquista de almas, que foi efetivamente a única obra que os apóstolos fizeram que era maior do que as realizadas por ele. Sobre isto, escrevi um post aqui no blog O Tempora, O Mores, dando as razões exegéticas para esta interpretação. A verdade é que nunca ninguém conseguiu superar os milagres de Jesus ao longo de dois mil anos de história do Cristianismo.


E quanto a sonhos e visões?

De acordo com o autor da carta aos Hebreus, Deus de fato se revelou de maneira extraordinária antes de Cristo, falando através dos profetas por meio de visões e sonhos, conforme encontramos no Antigo Testamento. Com a vinda do Senhor Jesus, que é a Palavra encarnada e portanto a última e maior revelação de Deus, estes modos de revelação cessaram, à medida que os apóstolos e escritores no Novo Testamento registraram de maneira infalível e definitiva esta última revelação.

Não digo que Deus não possa hoje se manifestar de maneira extraordinária a um crente. Mas, então, seria o caso de uma experiência pessoal, que não pode ter validade e utilidade pública e nem ser usada como meio para se impor alguma prática ou doutrina aos demais. A maneira geral, normal e esperada de Deus se comunicar conosco hoje é pelo Espirito falando pelas Escrituras e pela sua Providência, que é a maneira sábia pela qual Deus controla e governa os acontecimentos.


Vamos voltar ao dom de profecia. Afinal, ele existe hoje ou não?


Depende do que estamos falando. Os profetas do Antigo Testamento, como Isaías e Ezequiel por exemplo, receberam de Deus revelações quanto ao futuro de Israel, nas nações daquela época e da humanidade em geral. Estas revelações foram registradas em livros com o nome destes profetas e fazem parte da Bíblia. Além da profecia preditiva, os profetas exortavam o povo de Deus a que se arrependessem de seus pecados e voltassem à obediência da aliança. Na verdade, os livros deles trazem proporcionalmente muito mais exortações e advertências do que predições do futuro.

Os sucessores dos profetas do Antigo Testamento foram os apóstolos do Novo Testamento. Paulo, Pedro, João e os demais apóstolos também receberam revelações de Deus quanto ao futuro, a saber, a vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos, o novo céu e a nova terra.

Os profetas das igrejas locais no período apostólico não eram iguais aos profetas do Antigo Testamento como Isaías, Jeremias, Oséias, Joel, Amós, etc. Entendo que o dom de profecia que aparece nas listas de dons do Novo Testamento se refere à capacidade dada por Deus a determinadas pessoas para trazerem uma palavra de Deus à igreja, baseada nas Escrituras, em momentos de crise e necessidade. O profeta exortava, edificava e instruía os crentes reunidos. Não vejo qualquer base para dizermos que o dom de profetizar no Novo Testamento é o poder para revelar o que está acontecendo na vida íntima dos outros ou anunciar o futuro da vida das pessoas. Se fosse feito um registro da quantidade de profecias deste tipo que se mostraram falsas, não cumpridas ou que são tão gerais que cabe tudo nelas, já teríamos concluído de vez que o dom de profetizar não é isto.


Mas, e o caso do profeta Ágabo no livro de Atos que profetizou por duas vezes acontecimentos futuros?


Ágabo profetizou por duas vezes fatos que estavam relacionados com a vida e o ministério do apóstolo Paulo, durante o período em que as Escrituras estavam sendo feitas e no qual Paulo era o principal protagonista. Me parece claramente uma situação excepcional e bastante diferente do período atual da história da igreja.


Não acha que essa sua posição acaba por extinguir e apagar o Espírito e impedir a ação de Deus no meio de seu povo? Não é este o pecado imperdoável, a blasfêmia contra o Espírito Santo?


Acho que o maior pecado contra o Espírito é desobedecer as orientações que Ele nos deu na Bíblia para examinarmos todas as coisas. Ele orientou os escritores bíblicos a escreverem aos crentes dizendo que eles deveriam estar atentos contra manifestações espirituais que não procediam de Deus, contra a ação de falsos profetas e falsos irmãos e mesmo contra a ação de espíritos enganadores que são capazes de realizar sinais e prodígios (Apocalipse 16:14). 

O Espírito nos chama a discernir os espíritos, a exercitar o bom senso e usar a razão. Pecamos contra o Espírito ao aceitarmos as manifestações espirituais de maneira crédula, sem exame ou análise, renunciando às orientações bíblicas e à nossa razão. É pela omissão dos crentes que os falsos profetas entram nas igrejas e disseminam heresias perniciosas.


Qual o seu comentário final aos nossos ouvintes?


Não considero a questão da contemporaneidade dos dons como sendo uma daquelas que se acham no coração do cristianismo. Não estou negando a importância da discussão se todos os dons que aparecem na Bíblia estão disponíveis hoje ou não. A verdade é que cristãos verdadeiros que são cessacionistas ou continuístas têm o mesmo desejo, que é servir a Deus de todo coração e serem instrumentos de bênção para os outros. Por outro lado, se não tivermos uma compreensão clara de um assunto como este, poderemos não somente nos privar da verdade como também promover a mentira – em ambos os casos, mesmo que o prejuízo não seja fatal, certamente afetará a nossa vida e das pessoas ao nosso redor.


Por Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: Jovens Reformados 






Não estou escrevendo sobre esse assunto por ter a resposta final acerca dos dons espirituais, uma vez que a matéria é difícil e mesmo cristãos que amam a Deus e a Bíblia têm diferentes posições sobre o assunto. Os leitores devem saber que Sam Storms e eu somos amigos. Nós nos amamos, mesmo discordando em uma questão que é secundária ou terciária, e ao mesmo tempo defendemos a importância da verdade. Ao longo dos anos eu me convenci de que alguns dos chamados dons carismáticos não são mais dados à igreja e já não fazem mais parte da vida regular da igreja. Estou falando particularmente dos dons de apostolado, profecia, línguas, cura e milagres (e talvez de discernimento de espíritos).
Por que alguém pensaria que alguns dos dons cessaram? Meu argumento é de que tal entendimento se encaixa melhor com a Escritura e com a experiência. A Escritura tem prioridade sobre a experiência, pois ela é a autoridade final, mas a Escritura também deve se correlacionar com a vida, e as nossas experiências devem nos levar a refletir se nós lemos a Bíblia corretamente. Nenhum de nós lê a Bíblia em um vácuo, e, portanto, precisamos voltar para as Escrituras repetidamente para garantir que as lemos fielmente.

Fundação dos apóstolos e dos profetas


Paulo diz que a igreja foi “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Efésios 2.20). Concluo que tudo o que precisamos saber para a salvação e santificação nos foi dado através do ensinamento dos apóstolos e dos profetas, e que este ensinamento é agora encontrado nas Escrituras. Uma vez que Deus tem falado nos últimos dias através de seu Filho (Hebreus 1.2), nós não precisamos que ele nos envie outras palavras para explicar o que Jesus Cristo realizou em seu ministério, morte e ressurreição. Em vez disso, devemos batalhar “pela fé uma vez por todas confiada aos santos” através dos apóstolos e profetas (Judas 3).
Em outras palavras, nós não temos mais apóstolos como Paulo, Pedro e João. Eles nos deram o ensinamento autoritativo, no qual a igreja ainda vive, e que é o único ensinamento que precisaremos até que Jesus volte. Sabemos que novos apóstolos não aparecerão uma vez que Paulo disse especificamente ter sido o último apóstolo (1 Coríntios 15.8). Tiago, irmão de João, não foi substituído após sua morte (Atos 12.2). O termo Apóstolos, em seu sentido técnico, é restrito àqueles que viram o Senhor ressuscitado e que foram comissionados por ele. Ninguém desde os tempos apostólicos se encaixa em tais critérios. Os apóstolos foram designados exclusivamente para os primeiros dias da igreja para estabelecer a doutrina ortodoxa. Não há nada, então, que nos permita dizer que ainda existam apóstolos. Na verdade, se alguém afirma ser um apóstolo hoje, devemos nos preocupar. Tal afirmação abre a porta para falsos ensinos e abusos de autoridade.
Se o dom do apostolado acabou, então outros dons podem ter cessado também, uma vez que o fundamento foi lançado pelos apóstolos e pelos profetas (Efésios 2.20). Concluo a partir desse ponto que o dom de profecia também cessou, pois os profetas aqui identificados são do mesmo tipo daqueles mencionados em outros lugares nas Escrituras (cf. 1 Coríntios 12.28; Efésios 3:5, 4.11). As igrejas primitivas não tiveram o cânon das Escrituras completo por algum tempo, e, portanto, um ministério profético autoritativo e infalível se fez necessário para o estabelecimento das bases da igreja nos primeiros dias.
O argumento bíblico mais significativo contra o que eu estou propondo é a alegação de que no Novo Testamento (NT) a profecia é diferente da profecia do Antigo Testamento (AT), pois alguns dizem que no AT a profecia é impecável enquanto que no NT ela se mistura com o erro. Mas a ideia de que os profetas do NT poderiam cometer erros não é convincente por várias razões. 1.) O ônus da prova recai sobre aqueles que dizem que a profecia no NT é de natureza diferente da profecia no AT. Os profetas do AT só eram considerados profetas de Deus se eles fossem infalíveis (Deuteronômio 18.15-22). Podemos afirmar mais ou menos o mesmo no NT. 2.) A admoestação para julgar as profecias no lugar dos profetas (1 Coríntios 14.29-32; 1 Tessalonicenses 5.19-20) é frequentemente apresentada como prova de que o dom de profecia é diferente no NT. Mas este argumento não é convincente porque a única maneira de se julgar profetas em ambos os Testamentos é por meio de suas profecias. Nós só podemos saber se um profeta não é de Deus, se as suas profecias são falsas ou se suas palavras contradizem o ensino bíblico. 3.) Nós não temos nenhum exemplo de um profeta do NT que errou. Ágabo não errou quando profetizou que Paulo seria preso pelos judeus e entregue aos romanos (Atos 21.10-11). Aqueles que dizem que ele errou exigem mais precisão do que as profecias oferecem. Além disso, depois que Paulo foi preso apelou para as palavras de Ágabo, dizendo ter sido entregue aos romanos pelos judeus (Atos 28.17), o que demonstra que ele não achava que Ágabo cometeu algum erro. Ágabo anunciou as palavras do Espírito Santo (Atos 11.28; 21.11), então não temos nenhum exemplo no NT de profetas cujas profecias foram misturadas ao erro.
Alguns protestam dizendo que a minha compreensão é imprecisa uma vez que havia centenas e milhares de profecias nos tempos do NT que não foram canonizadas. Esta objeção não convence, pois o mesmo é verdade para o AT. A maioria das profecias de Elias ou de Eliseu nunca foram escritas ou canonizadas. Podemos pensar também nos 100 profetas poupados por Obadias (1 Reis 18.04). Aparentemente nenhuma das suas profecias foi canonizada. No entanto, as profecias eram completamente verdadeiras e sem erro algum. De outro modo eles não teriam sido profetas (Deuteronômio 18.15-22). O mesmo princípio se aplica para as profecias dos profetas do NT. Suas palavras não foram registradas, mas se eles foram realmente profetas, suas palavras eram infalíveis.
O que algumas pessoas atualmente chamam de “profecias” são na verdade impressões de Deus. Ele pode usar impressões para nos orientar e nos conduzir, mas elas não são infalíveis e devem ser sempre testadas à luz das Escrituras. Também devemos consultar conselheiros sábios antes de agirmos baseados nessas impressões. Eu amo meus irmãos e irmãs carismáticos, mas o que eles hoje chamam de “profecia” não é na verdade o dom de profecia bíblico. Impressões dadas por Deus não são a mesma coisa que profecias.

que falar sobre línguas?


O dom de línguas é uma questão ainda mais difícil. Em Atos (2.1-4, 10.44-48, 19.1-7) esse dom é símbolo da chegada da era do cumprimento em que as promessas da aliança de Deus seriam realizadas. 1 Coríntios 14.1-5 e Atos 2.17-18 também sugerem que as línguas, quando interpretadas (ou compreendidas), são equivalentes à profecia. Parece, então, que os dons de profecia e de línguas estão intimamente relacionados. Se a profecia já cessou, então é provável que as línguas também tenham cessado. Além disso, é evidente a partir de Atos que o dom envolve o falar em línguas estrangeiras (Atos 2), e Pedro enfatiza, no caso de Cornélio e seus amigos, que os gentios receberam o mesmo dom que os judeus (Atos 11.16-17).
Também não é convincente dizer que o dom citado em 1 Coríntios 12-14 é de natureza diferente (isto é, expressões de êxtase). A palavra “línguas” (glōssa) denota um código linguístico, uma linguagem estruturada, e não vocalização aleatória e livre. Quando Paulo diz que ninguém entende aqueles que falam em línguas, porque eles proferem mistérios (1 Coríntios 14.2), ele não está sugerindo que o dom é diferente daquele que encontramos em Atos. Aqueles que ouviram as línguas em Atos entenderam o que estava sendo dito porque eles conheciam as línguas que os apóstolos estavam falando. Se ninguém conhece a língua, então aquele que a pronuncia fala mistérios. 1 Coríntios 13.1 (língua dos anjos) também não dá suporte à noção de que o dom de línguas é constituído por expressões de êxtase. Paulo claramente utiliza uma hipérbole em 1 Coríntios 13.1-3. Ele está claramente exagerando ao se referir ao dom de profecia (1 Coríntios 13.2), porque ninguém que profetiza conhece “todos os mistérios e toda a ciência”.
Eu acredito que o que está acontecendo nos círculos carismáticos atualmente a respeito das línguas é semelhante ao que vimos acontecer com a profecia. O dom foi redefinido para incluir uma espécie de vocalização livre, e então as pessoas afirmam ter o dom descrito nas Escrituras. Ao fazer isso eles redefinem o dom para acomodar sua experiência contemporânea. Isso significa que as línguas contemporâneas são demoníacas, então? Acho que não. Concordo com J. I. Packer que diz que a experiência é mais uma forma de relaxamento psicológico.

Milagres e curas


O que podemos falar sobre milagres e curas? Em primeiro lugar, eu acredito que hoje Deus ainda cura e realiza milagres, e que devemos orar por isso. As Escrituras não são tão claras sobre esse assunto, de forma que esse dom poderia ainda existir. Ainda assim, a principal função desses dons era credenciar a mensagem do evangelho, confirmando que Jesus era tanto Senhor quanto Cristo. Eu duvido que o dom de milagres e curas ainda exista, por que não é evidente que homens e mulheres em nossas igrejas possuam tais dons. Certamente Deus pode curar e cura, às vezes, mas onde estão as pessoas com esses dons? Supostos milagres e curas devem ser verificados, assim como o povo verificou a cura do cego em João 9. Há uma espécie de ceticismo biblicamente justificado.
Agora, será que Deus poderia, em situações missionárias extremas, conceder milagres, sinais e prodígios para credenciar o evangelho como ele fez nos tempos apostólicos? Sim. Mas isso não é a mesma coisa que ter esses dons como uma característica normal no cotidiano da igreja. Se os sinais e maravilhas dos apóstolos tivessem voltado, deveríamos ver o cego recebendo a visão, os coxos andando e os mortos sendo ressuscitados. Deus cura hoje (às vezes de forma dramática), mas a cura de resfriados, de gripe, de DTM, problemas no estômago e nas costas, e assim por diante, não estão na mesma categoria que as curas encontradas nas Escrituras. Se as pessoas realmente têm, hoje em dia, o dom de cura e milagres, elas precisam demonstra-lo através da realização dos tipos de curas e milagres encontrados na Bíblia.

1 Coríntios 13.8-12 não contradiz a sua opinião?


Vamos considerar uma objeção à noção de que alguns dos dons cessaram. Será que 1 Coríntios 13.8-12 não ensina que os dons durarão até Jesus voltar? Certamente esse texto ensina que os dons poderiam durar até a volta de Jesus. Não há ensinamento definitivo na Bíblia de que eles cessaram. Podemos até esperar que durem até a segunda vinda. Mas vemos indícios em Efésios 2.20 e outros textos de que os dons exerceram seu papel na fundação da igreja. Concluo, então, que 1 Coríntios 13.8-12 permite, mas não exige, que os dons continuem até a segunda vinda. E que os dons, da maneira como são praticados hoje, não se encaixam na descrição bíblica desses dons.
Por razões como essas os reformadores e grande parte da tradição protestante até o século 20 acreditavam que os dons cessaram. Concluo que tanto a Escritura quanto a experiência atestam o seu julgamento sobre o assunto.


Sam Storms é pastor principal para o ministério de pregação e visão na Bridgeway Church em Oklahoma City, Oklahoma.

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