segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Acervo da Teologia

* Calvinismo / Predestinação / Livre Arbítrio - Estudos

Os Cinco Pontos do Calvinismo no Período Mosaico

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A predestinação parece lançar uma sombra exatamente no coração da liberdade humana. Se Deus decidiu nossos destinos desde toda a eternidade, isso sugere fortemente que nossas livres escolhas não são senão charadas, exercícios vazios de atuação teatral predeterminada. É como se, na realidade, Deus tivesse escrito o roteiro para nós, e estivéssemos meramente encarregados do cenário.

Para lidarmos com a enigmática relação entre predestinação e livre-arbítrio, precisamos primeiro definir livre-arbítrio. Essa definição é, ela mesma, um assunto de grande debate. Provavelmente a definição mais comum seja a que diz que o livre-arbítrio é a capacidade de fazer escolhas sem nenhum preconceito, inclinação ou disposição anteriores. Para o arbítrio ser livre, é preciso agir a partir de uma postura de neutralidade, sem absolutamente nenhuma tendência.

Na superfície isto é muito atraente. Não há elementos de coerção, nem externos nem internos, a serem encontrados aí. Embaixo da superfície, contudo, estão à espreita dois sérios problemas. Por um lado, se fazemos nossas escolhas estritamente a partir de uma postura natural, sem nenhuma inclinação anterior, então fazemos nossas escolhas sem nenhuma razão. Se não temos nenhuma razão para nossas escolhas, se nossas escolhas são totalmente espontâneas, então nossas escolhas não têm nenhum significado moral. Se uma escolha apenas acontece — apenas surge, sem nenhuma rima ou razão — então não pode ser julgada boa ou má. Quando Deus avalia nossas escolhas, Ele está interessado em nossos motivos.

Considere o caso de José e seus irmãos. Quando José foi vendido como escravo por seus irmãos, a providência de Deus estava operando. Anos mais tarde, quando José se reuniu com seus irmãos no Egito, declarou-lhes: "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; mas Deus o tornou em bem..." (Gn 50.20). Aqui o motivo era o fator decisivo determinando se o ato era bom ou mau. O envolvimento de Deus no dilema de José era bom; o envolvimento dos irmãos era mau. Havia uma razão pela qual os irmãos de José o venderam como escravo. Tinham uma motivação má. Sua decisão não foi espontânea nem neutra. Tinham ciúme de seu irmão. Sua escolha de vendê-lo foi incitada por seus maus desejos.

O segundo problema que esta visão popular enfrenta não é tanto moral como é racional. Se não há nenhuma inclinação ou desejo anteriores, nenhuma motivação anterior, ou razão para uma escolha, como pode uma escolha ser feita? Se a vontade é totalmente neutra, por que iria escolher a direita ou a esquerda? E algo como o problema encontrado por Alice no País das Maravilhas, quando chegou a uma bifurcação na estrada. Ela não sabia para que lado ir. Ela viu o radioso gato Cheshire na árvore. Perguntou ao gato: "Para que lado devo seguir?" O gato replicou: "Para onde você está indo?" Alice respondeu: "Não sei" " Então", disse o gato Cheshire, "isso não importa."

Considere o dilema de Alice. Na realidade ela possuía quatro opções entre as quais escolher. Ela poderia ter tomado a variante da direita ou a variante da esquerda. Ela também poderia ter escolhido voltar pelo caminho por onde tinha ido. Ou poderia ter ficado parada no lugar de indecisão até que morresse ali. Para que ela desse um passo em qualquer direção, precisaria de alguma motivação ou inclinação para fazê-lo. Sem nenhuma motivação, nenhuma inclinação anterior, sua única opção real seria ficar parada ali e perecer.

Outra famosa ilustração do mesmo problema é encontrada na história da mula que tinha desejo neutro. A mula não tinha desejos anteriores, ou desejos iguais em duas direções. Seu proprietário pôs uma cesta de aveia à sua esquerda e uma cesta de trigo à sua direita. Se a mula não tivesse nenhum desejo, tanto pela aveia como pelo trigo, ela não escolheria nenhum e passaria fome. Se ela tivesse uma disposição exatamente igual para a aveia como tinha para o trigo, ainda assim iria passar fome. Sua disposição igual a deixaria paralisada. Não haveria motivo. Sem motivo, não haveria escolha. Sem escolha, não haveria comida. Sem comida, logo não haveria mula. Precisamos rejeitar a teoria da vontade neutra não somente porque é irracional, mas porque, como veremos, é radicalmente antibíblica.

Os pensadores cristãos nos deram duas definições muito importantes de livre-arbítrio. Vamos considerar primeiro a definição oferecida por Jonathan Edwards em sua obra clássica Sobre a Liberdade da Vontade.

Edwards definiu a vontade como "a escolha da mente". Antes de fazermos quaisquer escolhas morais, precisamos primeiro ter alguma ideia do que é que estamos escolhendo. Nossa seleção é então baseada naquilo que a mente aprova ou rejeita. Nosso entendimento de valores tem um papel crucial a representar em nossa tomada de decisão. Minhas inclinações e motivos, assim como minhas escolhas efetivas são moldadas pela minha mente. Outra vez, se a mente não está envolvida, então a escolha é feita por nenhuma razão e sem nenhuma razão. É então um ato arbitrário e moralmente insignificante. Instinto e escolha são duas coisas diferentes.

Uma segunda definição de livre-arbítrio é "a capacidade de escolher o que queremos". Isto se apóia no importante fundamento do desejo humano. Ter livre-arbítrio é ser capaz de escolher de acordo com nossos desejos. Aqui o desejo desempenha o papel vital de prover uma motivação ou uma razão para se tomar uma decisão.

Agora a parte enganosa. De acordo com Edwards, um ser humano não somente é capaz de escolher o que deseja, como — precisa escolher o que deseja, simplesmente para ser capaz de escolher. O que eu chamo de Lei da Escolha de Edwards é esta: "A vontade sempre escolhe de acordo com sua mais forte inclinação do momento". Isto significa que toda escolha é livre e toda escolha é determinada.

Eu disse que era enganoso. Soa como uma clara contradição dizer que toda escolha é livre e ainda assim toda escolha é determinada. "Determinada", aqui, não significa que alguma força externa compele a vontade. Em vez disso, refere-se à motivação ou desejo interno de alguém. Em poucas palavras, a lei é esta: Nossas escolhas são determinadas por nossos desejos. Elas continuam sendo nossas escolhas porque são motivadas por nossos próprios desejos. Isto é o que chamamos de autodeterminação, que é a essência da liberdade.

Pense um pouco sobre suas próprias escolhas. Como e por que elas são feitas? Neste exato momento você está lendo as páginas deste livro. Por quê? Você pegou este livro porque você tinha um interesse no assunto da predestinação, um desejo de aprender mais sobre este complexo assunto? Talvez. Talvez este livro tenha sido dado a você para ler como uma tarefa. Talvez você esteja pensando: "Não tenho nenhum desejo de ler isto. Tenho de lê-lo, e estou me arrastando com dificuldade com isto para cumprir o desejo de outra pessoa de que eu o lesse. Todas as coisas sendo iguais, eu nunca escolheria ler este livro".

Mas todas as coisas não são iguais, são? Se você está lendo este livro por causa de algum tipo de dever, ou para atender uma necessidade, você ainda teve de tomar uma decisão a respeito de atender uma necessidade ou não atender a requisição. Você obviamente decidiu que era melhor ou mais desejável que você lesse este livro do que o deixasse sem ler. Até aí tenho certeza, ou você não o estaria lendo bem agora.

Toda decisão que você toma é feita por uma razão. Na próxima vez que você for a um lugar público e escolher um assento (um teatro, uma sala de aula, uma igreja), pergunte a você mesmo por que você está sentado onde está. Talvez seja o único assento disponível e você prefere sentar-se a ficar em pé. Talvez você descubra que existe um padrão quase inconsciente emergindo de suas decisões a respeito de sentar-se. Talvez você descubra que, sempre que possível, você se senta mais na frente ou mais no fundo. Por quê? Talvez tenha algo a ver com a sua vista. Talvez você seja tímido ou gregário. Você pode pensar que você se senta onde se senta por nenhuma razão, mas o assento que você escolhe será sempre escolhido pela inclinação mais forte que você tiver no momento de decisão. A inclinação pode ser meramente que o assento mais próximo de você está livre e você não gosta de andar longas distâncias para encontrar um lugar onde se sentar.

Tomada de decisão é um assunto complexo porque as opções que encontramos freqüentemente são muitas e variadas. Acrescente a isso o fato que nós somos criaturas com muitos e variados desejos. Temos motivações diferentes, muitas vezes mesmo conflitantes.

Considere o assunto dos sorvetes de casquinha. Sim, eu tenho problemas com sorvetes de casquinha e com sundaes. Se for possível ser viciado em sorvete, então eu devo ser classificado como um viciado em sorvete. Estou pelo menos oito quilos acima de meu peso, e estou certo de que pelo menos dez dos quilos que compõem o meu peso estão lá por causa de sorvete. O sorvete é, para mim, uma prova do adágio, "Um segundo nos lábios; para sempre nos quadris". E, "Indulgentes engordam." Por causa do sorvete tenho de comprar minhas camisas com tamanho extra na cintura.

Agora, todas as coisas sendo iguais, eu gostaria de ter um corpo magro e ajeitado. Não gosto de me espremer nos ternos e de ver senhoras de idade dando tapinhas na minha barriga. Dar tapinhas na barriga parece ser uma tentação irresistível para algumas pessoas. Eu sei o que tenho de fazer para me livrar desses quilos em excesso. Preciso parar de tomar sorvete. Assim, começo uma dieta. Começo porque eu quero começar uma dieta. Quero perder peso. Quero ter melhor aparência. Tudo está bem até que alguém me convida para ir ao Swenson's. O Swenson's faz os melhores "Super Sundaes" do mundo. Eu sei que não deveria ir ao Swenson's. Mas eu gosto de ir ao Swenson's. Quando chega o momento de decisão, fico face a face com desejos conflitantes. Tenho o desejo de ser magro e tenho o desejo de tomar um "Super Sunday . Qualquer desses desejos que for maior na hora da decisão é o desejo que vou escolher. É simples assim.

Agora considere minha esposa. Enquanto nos preparamos para celebrar nossas bodas de prata, estou consciente de que ela tem exatamente o mesmo peso que tinha no dia em que nos casamos. Seu vestido de noiva ainda lhe serve perfeitamente. Ela não tem maiores problemas com sorvete. A maioria dos restaurantes oferece só sorvetes de creme, chocolate e morango. Qualquer um desses me dá água na boca, mas não consegue enlaçar minha esposa. Ah-ah! Mas existe uma certa sorveteria que tem praliné e sorvete de chantili  Quando vamos ao shopping center e passamos por ela, minha esposa experimenta uma estranha transformação. Seu passo desacelera, suas mãos ficam frias, e eu quase posso detectar um começo de salivação (Isso mesmo, salivação e não salvação). Agora ela experimenta o conflito de desejos que me assaltam diariamente.

Nós sempre escolhemos de acordo com nossa mais forte inclinação do momento. Mesmo atos externos de coação não podem tirar totalmente nossa liberdade. A coação envolve agir com algum tipo de força, impondo escolhas para pessoas que, se deixadas a si mesmas, não fariam. Eu certamente não tenho desejo de pagar o tipo de imposto de renda que o governo me faz pagar. Posso me recusar a pagá-lo, mas as conseqüências são menos desejáveis do que pagá-lo. Ameaçando-me com cadeia, o governo é capaz de impor sua vontade sobre mim para pagar impostos.

Ou considere o caso do roubo a mão armada. Um assaltante aproxima-se de mim e diz: "Seu dinheiro ou sua vida". Ele assim restringiu minhas opções a duas. Todas as coisas sendo iguais, não tenho desejo de dar meu dinheiro a ele. Há obras de caridade muito mais merecedoras do que ele. Mas, de repente, meus desejos mudaram como resultado de seu ato externo de coação. Ele está usando a força para provocar certos desejos em mim. Agora preciso escolher entre meu desejo de viver e meu desejo de dar a ele o que ele quer. Eu poderia muito bem lhe dar meu dinheiro porque, se ele me matar, levará meu dinheiro de qualquer jeito. Algumas pessoas poderiam escolher recusar-se, dizendo: "Eu preferiria morrer a entregar o que tenho a este assaltante. Ele terá de tirá-lo de meu cadáver".

Em qualquer dos casos, é feita uma escolha. E é feita de acordo com a mais forte inclinação do momento. Pense, se puder, em qualquer escolha que você já fez que não estivesse de acordo com a inclinação mais forte que você tinha no momento. Que dizer do pecado? Todo cristão tem algum desejo em seu coração de obedecer a Cristo. Amamos Cristo e queremos agradá-lo. Ainda assim, todo cristão peca. A dura verdade é que, no momento em que pecamos, desejamos o pecado mais fortemente do que desejamos obedecer a Cristo. Se desejássemos sempre obedecer a Cristo mais do que desejamos pecar, nunca pecaríamos.

O apóstolo Paulo não ensina diferentemente? Ele não nos conta uma situação em que ele age contra seus desejos? Ele diz em Romanos, "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço" (Rm 7.19). Aqui soa como se, sob a inspiração de Deus Espírito Santo, Paulo estivesse ensinando claramente que há vezes em que ele age contra suas mais fortes inclinações.

É extremamente improvável que o apóstolo esteja aqui nos dando uma revelação sobre a operação técnica da vontade. Em vez disso, ele está declarando plenamente o que cada um de nós tem experimentado. Todos temos o desejo de escapar do pecado. A síndrome do "todas as coisas sendo iguais" está em vista aqui. Todas as coisas sendo iguais, eu gostaria de ser perfeito. Eu gostaria de ficar livre do pecado, como gostaria de ficar livre de meu excesso de peso. Mas meus desejos não permanecem constantes. Eles flutuam. Quando meu estômago está cheio, é fácil entrar numa dieta. Quando meu estômago está vazio, meu nível de desejo muda. Tentações se levantam com a mudança de meus desejos e apetites. Então faço coisas que, todas as coisas sendo iguais, eu não desejaria fazer.

Paulo coloca perante nós exatamente o verdadeiro conflito dos desejos humanos, desejos que levam a más escolhas. O cristão vive dentro de um campo de batalha de desejos conflitantes. O crescimento cristão envolve o fortalecimento dos desejos de agradar a Cristo, acompanhado do enfraquecimento dos desejos de pecar. Paulo chamou isso de guerra entre a carne e o espírito.

Dizer que sempre escolhemos de acordo com nossa inclinação mais forte do momento é dizer que sempre escolhemos o que queremos. Em cada ponto da escolha somos livres e autodeterminados. Ser autodeterminado não é a mesma coisa que determinismo. Determinismo significa que somos forçados ou coagidos a fazer coisas por forças externas. As forças externas podem, como temos visto, limitar severamente nossas opções, mas não podem destruir completamente a escolha. Elas não podem impor prazer nas coisas que odiamos. Quando isso acontece, quando o ódio se torna em prazer, é uma questão de persuasão, e não de coação. Não posso ser forçado a fazer aquilo que já tenho prazer em fazer. A visão neutra do livre-arbítrio é impossível. Envolve escolha sem desejo. É como ter um efeito sem uma causa. E alguma coisa a partir do nada, que é irracional. A Bíblia torna claro que escolhemos a partir de nossos desejos. Um desejo maligno produz escolhas malignas e ações malignas. Um desejo piedoso produz atos piedosos. Jesus falou em árvores corruptas produzindo frutos corruptos. Uma figueira não dá maçãs e uma macieira não dá figos. Assim, desejos justos produzem escolhas justas e maus desejos produzem escolhas más.


CAPACIDADE MORAL E NATURAL

Jonathan Edwards fez outra distinção que é útil no entendimento do conceito bíblico do livre-arbítrio. Ele distinguiu entre capacidade natural e capacidade moral. A capacidade natural tem a ver com os poderes que recebemos como seres humanos naturais. Como um ser humano, tenho a capacidade natural de pensar, de andar, de falar, de ver, de ouvir, e, sobretudo, de fazer escolhas. Há certas capacidades naturais que me faltam. Outras criaturas podem possuir a capacidade de voar sem a ajuda de máquinas. Eu não tenho essa capacidade natural. Posso desejar voar pelos ares como o Super-Homem, mas não tenho essa capacidade. A razão pela qual eu não posso voar não é devida à deficiência moral no meu caráter, mas porque meu Criador não me deu o equipamento natural necessário para voar. Não tenho asas.

A vontade é uma capacidade natural dada a nós por Deus. Temos todas as faculdades naturais necessárias para fazer escolhas. Temos uma mente e temos uma escolha. Temos a capacidade natural de escolher o que desejamos. Qual, então, é o nosso problema? De acordo com a Bíblia, a localização de nosso problema é clara. É com a natureza de nossos desejos. Este é o ponto focai de nossa queda. A Escritura diz que o coração do homem decaído abriga continuamente desejos que são somente maus (Gn 6.5).

A Bíblia tem muito a dizer sobre o coração do homem. Na Escritura, o coração refere-se não tanto a um órgão que bombeia sangue através do corpo, como à essência da alma, ao lugar mais profundo das afeições humanas. Jesus viu uma conexão próxima entre a localização dos tesouros do homem e os desejos de seu coração. Encontre o mapa do tesouro do homem e você terá a estrada para seu coração.

Edwards declarou que o problema do homem com o pecado está em sua capacidade moral, ou falta dela. Antes que uma pessoa possa fazer uma escolha que é agradável a Deus, ela precisa primeiro ter um desejo de agradar a Deus. Antes de encontrarmos Deus, precisamos primeiro desejar procurá-lo. Antes de escolhermos o bem, precisamos primeiro ter um desejo pelo bem. Antes de escolhermos Cristo, precisamos primeiro ter um desejo por Cristo. O valor e a substância do debate todo apoiam se precisamente neste ponto: O homem decaído, em si mesmo e de si mesmo, tem um desejo natural por Cristo?

Edwards responde a esta questão com um enfático "Não!". Ele insiste que, na queda, o homem perdeu seu desejo original por Deus. Quando ele perdeu esse desejo, alguma coisa aconteceu à sua liberdade. Ele perdeu a capacidade moral de escolher Cristo. Ou ele tem esse desejo já dentro dele, ou precisa receber esse desejo de Deus. Edwards e todos que abraçaram a visão reformada da predestinação concordam que, se Deus não plantar esse desejo no coração humano, ninguém, deixado a si mesmo, jamais escolherá Cristo. Eles sempre e em todo lugar rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo no sentido de que sempre agirão de acordo com seus desejos.

A este ponto, não estou tentando provar a verdade da visão de Edwards. Para fazer isso, é preciso dar uma olhada de perto na visão bíblica da capacidade ou inabilidade moral do homem. Faremos isso mais tarde. Precisamos também responder à pergunta: "Se falta ao homem a capacidade moral de escolher Cristo, como pode Deus considerá-lo responsável por escolher Cristo? Se o homem nasce num estado de incapacidade moral, sem nenhum desejo de escolher Cristo, não é então culpa de Deus que os homens não escolham Cristo?" Novamente peço paciência ao leitor, com a promessa de que vou retomar estas questões brevemente.


A VISÃO DE LIBERDADE DE SANTO AGOSTINHO


Assim como Edwards fez uma crucial distinção entre capacidade moral e capacidade natural, também Agostinho, antes dele, fez uma distinção similar. Agostinho abordou o problema dizendo que o homem tem um livre-arbítrio, mas lhe falta liberdade. Na superfície parece uma distinção estranha. Como poderia alguém ter um livre-arbítrio e ainda assim não ter liberdade?

Agostinho estava chegando à mesma coisa que Edwards. O homem decaído não perdeu sua capacidade de fazer escolhas. O pecador ainda é capaz de escolher o que ele quer, ele ainda pode agir de acordo com seus direitos. Ainda assim, por serem seus desejos corruptos, ele não tem a liberdade real daqueles que foram libertos para a justiça. O homem decaído está num sério estado de servidão moral. Esse estado de servidão é chamado de pecado original.

O pecado original é um assunto difícil que virtualmente toda denominação cristã tem de enfrentar. A queda do homem é ensinada tão claramente na Escritura que não podemos construir uma visão do homem sem levá-la em consideração. Existem uns poucos cristãos, se é que existem, que argumentam que o homem não é decaído. Sem reconhecer que somos decaídos, não podemos reconhecer que somos pecadores. Se não reconhecermos que somos pecadores, dificilmente fugiremos para Cristo como nosso Salvador. Admitir a queda é um pré-requisito para vir a Cristo.

É possível admitir que somos decaídos sem abraçar alguma doutrina de pecado original, mas somente com severas dificuldades no processo. Não é por acaso que quase todo o Corpo de Cristo tem formulado alguma doutrina de pecado original.

Neste ponto, multidões de cristãos discordam. Concordamos que precisamos ter uma doutrina de pecado original, mas aí permanece grande discordância quanto ao conceito de pecado original e sua extensão.

Vamos começar declarando o que o pecado original não é. O pecado original não é o primeiro pecado. O pecado original não se refere especificamente ao pecado de Adão e Eva. O pecado original refere-se ao resultado do pecado de Adão e Eva. O pecado original é a punição que Deus dá pelo primeiro pecado. É alguma coisa assim: Adão e Eva pecaram. Esse foi o primeiro pecado. Como resultado do pecado deles, a humanidade foi mergulhada em ruína moral. A natureza humana experimentou uma queda moral. As coisas mudaram para nós depois que o primeiro pecado foi cometido. A raça humana tornou-se corrompida. A corrupção subseqüente é o que a Igreja chama de pecado original. O pecado original não é um ato específico de pecado. É uma condição de pecado.

O pecado original refere-se a uma natureza de pecado a partir da qual fluem atos pecaminosos. Novamente, nós cometemos atos pecaminosos porque nossa natureza é para pecar. A natureza original do homem não era para pecar, mas, depois da queda, sua natureza original mudou. Agora, por causa do pecado original, temos uma natureza decaída e corrompida.

O homem decaído, como a Bíblia declara, é nascido no pecado. Ele está "debaixo" do pecado. Pela natureza, somos filhos da ira. Não nascemos num estado de inocência.

John Gerstner uma vez foi convidado a pregar numa igreja presbiteriana. Ele foi saudado à porta pelos presbíteros, que lhe explicaram que a ordem de adoração para aquele dia incluía a administração de batismo infantil. O Dr. Gerstner concordou em dirigir o culto. Então um dos presbíteros explicou uma tradição especial da igreja. Ele pediu ao Dr. Gerstner que oferecesse uma rosa branca aos pais de cada bebê antes do batismo. O Dr. Gerstner perguntou sobre o significado da rosa branca. O presbítero respondeu: "Nós oferecemos a rosa branca como símbolo da inocência do bebê perante Deus".

"Entendo", disse o Dr. Gerstner. "E o que simboliza a água?"

Imagine a consternação do presbítero quando tentou explicar o propósito simbólico de lavar o pecado de inocentes bebês. A confusão de sua congregação não é exclusiva dela. Quando reconhecemos que bebês não são culpados de cometer atos específicos de pecado, é fácil saltar para a conclusão de que são, portanto, inocentes. Este é um largo salto teológico sobre uma pilha de espadas. Embora o bebê seja inocente de atos específicos de pecado, ele ainda é culpado pelo pecado original.

Para entender a visão reformada da predestinação é absolutamente necessário entender a visão reformada do pecado original. Os dois assuntos sustentam-se juntos, ou caem juntos.

A visão reformada segue o pensamento de Agostinho. Agostinho elucida o estado de Adão antes da queda e o estado da humanidade depois da queda. Antes da queda foram concedidas a Adão duas possibilidades: Ele tinha a capacidade para pecar e a incapacidade para não pecar. A ideia de "incapacidade para não" é um pouco confusa porque, em nossa língua, é uma dupla negativa. A fórmula latina de Agostinho era non posse non peccare. Colocado de outra maneira, significa que, depois da queda, o homem era moralmente incapaz de viver sem pecar. A capacidade de viver sem pecar foi perdida na queda. A incapacidade moral é a essência do que chamamos de pecado original.

Quando nascemos de novo, nossa servidão ao pecado é aliviada. Depois que somos vivificados em Cristo, novamente temos a capacidade para pecar e a capacidade para não pecar. No céu, teremos a incapacidade para pecar. Vamos ver isto no quadro seguinte:



O HOMEM ANTES DA QUEDA
... Capaz de pecar ...Capaz de não pecar
O HOMEM DEPOIS DA QUEDA
... Capaz de pecar ... Incapaz de pecar
O HOMEM RENASCIDO
...Capaz de pecar ... Capaz de não pecar
O HOMEM GLORIFICADO
...Capaz de não pecar ... Incapaz de pecar

O quadro mostra que o homem antes da queda, depois da queda e depois de renascer é capaz de pecar. Antes da queda ele é capaz de não pecar. Essa capacidade, a capacidade de não pecar, é perdida na queda. É restaurada quando a pessoa nasce de novo, e continua no céu. Na criação, o homem não sofreu de incapacidade moral. A incapacidade moral é um resultado da queda. Colocando de outra maneira, antes da queda o homem era capaz de refrear-se de pecar; depois da queda, não é mais capaz de refrear-se de pecar. É isso que chamamos de pecado original. Esta incapacidade moral ou servidão moral é vencida através do renascimento espiritual. O renascimento libera-nos do pecado original. Antes do renascimento ainda temos um livre-arbítrio, mas não temos esta liberação do poder do pecado, que é o que Agostinho chamou de "liberdade".

A pessoa que é renascida ainda pode pecar. A capacidade de pecar não é removida até que sejamos glorificados no céu. Temos a capacidade de pecar, mas não estamos mais sob a servidão do pecado original. Fomos libertados. Isto, é claro, não quer dizer que agora vivemos vidas perfeitas. Ainda pecamos. Mas não podemos dizer que pecamos porque isso é tudo que nossa natureza decaída tem poder para fazer.


A VISÃO DE JESUS DA CAPACIDADE MORAL


Fizemos um breve resumo da visão de Jonathan Edwards e de Santo Agostinho sobre o assunto da incapacidade moral. Eu acho que eles são úteis, e estou também persuadido que eles estão corretos. Ainda assim, a despeito de sua autoridade como grandes teólogos, nenhum deles pode exigir de nós nossa submissão absoluta a seus ensinamentos. Ambos são falíveis. Para o cristão, o ensinamento de Jesus é outro assunto. Para nós, assim como para qualquer outra pessoa, se de fato Jesus é o Filho de Deus, o ensinamento de Jesus deve estar atado às nossas consciências. Seu ensinamento sobre a questão da capacidade moral do homem é definitivo.

Um dos ensinamentos mais importantes de Jesus sobre este assunto é encontrado no Evangelho de João. "Por causa disto é que vos tenho dito: Ninguém poderá vir a mim se pelo Pai não lhe for concedido" (Jo 6.65).

Vamos olhar de perto para este versículo. O primeiro elemento do ensinamento é uma negativa universal. A palavra "ninguém" é completamente inclusiva. Não permite nenhuma exceção além das exceções que Jesus acrescenta. A próxima palavra é crucial. É a palavra poderá. Isto tem a ver com capacidade, e não com permissão.

Nesta passagem Jesus não está dizendo: "Não é permitido que ninguém venha a mim". Ele está dizendo, "Ninguém é capaz de vir a mim."

A palavra seguinte na passagem é também vital. "Se" refere-se ao que chamamos de condição necessária. Uma condição necessária refere-se a algo que precisa acontecer antes que outra coisa possa acontecer. O significado das palavras de Jesus é claro. Nenhum ser humano tem a possibilidade de poder vir a Cristo a menos que aconteça alguma coisa que torne possível que ele venha. Essa condição necessária que Jesus declara é que "lhe seja concedido pelo Pai". Jesus está dizendo aqui que a capacidade de vir a Ele é um dom de Deus. O homem não tem capacidade em si mesmo e de si mesmo para vir a Cristo. Deus precisa fazer alguma coisa antes.

A passagem ensina pelo menos isto: Não está dentro da capacidade natural do homem decaído vir a Cristo por si próprio, sem algum tipo de assistência divina. Pelo menos até este ponto, Edwards e Agostinho estão em sólida concordância com o ensinamento de nosso Senhor. A pergunta que permanece é esta: Deus dá a capacidade de vir a Jesus a todos os homens? A visão reformada da predestinação diz que não. Algumas outras visões da predestinação dizem que sim. Porém uma coisa é certa: o homem não pode fazê-lo por seu próprio poder, sem algum tipo de ajuda de Deus.

Que tipo de ajuda é requerido? Até onde Deus precisa ir para vencer nossa capacidade natural de vir a Cristo? Uma evidência é encontrada em outro lugar, neste mesmo capítulo. De fato, há duas outras declarações de Jesus que têm relação direta com esta questão.

Anteriormente, no capítulo 6 do Evangelho de João, Jesus faz uma declaração similar. Ele diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (Jo 6.44). A palavra chave aqui é trouxer. O que significa para o Pai trazer pessoas a Cristo? Muitas vezes tenho ouvido este texto explicado como significando que o Pai precisa convidar ou atrair os homens para Cristo. A menos que isto aconteça, nenhum homem virá a Cristo. Contudo, o homem tem a capacidade de resistir a esse convite ou de recusar a atração. O convite, embora necessário, não compele. Na linguagem filosófica, isso significaria que a atração de Deus é uma condição necessária, mas não suficiente para trazer os homens a Cristo. Em linguagem mais simples, significa que não podemos vir a Cristo sem o convite, mas o convite não garante que viremos, de fato, a Cristo.

Estou persuadido de que a explicação acima, que é tão difundida, está incorreta. Faz violência ao texto da Escritura, particularmente ao sentido bíblico da palavra trouxer. A palavra grega usada aqui é elko. O Dicionário Teológico do Novo Testamento, de Kittel, define-a como significando compelir por irresistível superioridade. Lingüisticamente e lexicograficamente, a palavra significa "compelir".

Compelir é um conceito muito mais vigoroso do que cortejar. Para enxergar mais claramente, vamos dar uma olhada em duas outras passagens do Novo Testamento onde a mesma palavra grega é usada. Em Tiago 2.6, lemos: "Entretanto, vós outros menosprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem, e não são eles que vos arrastam para os tribunais?" Adivinhe qual palavra nesta passagem é a mesma palavra grega que em outros lugares está traduzida por trazer. É a palavra arrastar. Vamos agora substituir este texto pela palavra convidar. Ficaria assim: "Não são os ricos que vos oprimem e vos convidam para tribunais?"

O mesmo ocorre em Atos 16.19. "Vendo os seus senhores que se lhes desfizera a esperança do lucro, agarrando em Paulo e Silas, os arrastaram para a praça, à presença das autoridades." Novamente, tente substituir a palavra arrastar pela palavra convidar. Paulo e Silas não foram agarrados e então convidados para irem à praça.

Uma vez me convidaram para debater a doutrina da predestinação num fórum público, num seminário arminiano. Meu opositor era o chefe do departamento de Novo Testamento do seminário. Num ponto crucial do debate, concentramos nossa atenção na passagem a respeito do Pai atraindo pessoas. Meu opositor foi quem trouxe a passagem, como prova para dar suporte à sua alegação de que Deus nunca força ou compele ninguém a vir a Cristo. Ele insistia que a divina influência sobre o homem decaído era restrita à atração, que ele interpretava como tendo o significado de convite.

Nesse ponto do debate rapidamente me referi a Kittel e às outras passagens do Novo Testamento que traduzem a palavra como arrastar. Estava certo de tê-lo vencido. Estava certo de que ele havia entrado numa dificuldade insolúvel para sua própria posição. Mas ele me surpreendeu. Ele me pegou completamente desprevenido. Jamais me esquecerei daquele momento agonizante em que ele citou uma referência de um obscuro poeta grego em que a mesma palavra grega era usada para descrever a ação de tirar água de um poço. Ele olhou para mim e disse: "Bem, professor Sproul, alguém arrasta água de um poço?" Imediatamente a audiência explodiu em gargalhadas por causa da surpreendente revelação do significado alternativo da palavra grega. Eu fiquei ali, parecendo um pouco tolo. Quando as risadas cessaram, repliquei: "Não, senhor. Tenho de admitir que nós não arrastamos água de um poço. Mas, como conseguimos água de um poço? Nós a convidamos? Ficamos em cima do poço e gritamos: "Aqui, água, vem, água?" E tão necessário que Deus venha a nossos corações para nos voltar em direção a Cristo, como é para nós colocar o balde na água e puxá-lo para fora, se quisermos algo para beber. A água simplesmente não virá por si própria, respondendo a um mero convite externo.

Por mais cruciais que sejam estas passagens do Evangelho de João, elas não ultrapassam em importância um outro ensinamento de Jesus no mesmo Evangelho, com respeito à incapacidade moral do homem. Estou pensando na famosa discussão que Jesus teve com Nicodemos em João 3. Jesus disse a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.3). Dois versículos depois Jesus repete o ensinamento: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus".

Aqui encontramos a expressão chave Quem não... Jesus está declarando uma precondição necessária e enfática para a capacidade de qualquer ser humano de ver e entrar no Reino de Deus. Essa precondição enfática é o renascimento espiritual. A visão reformada da predestinação ensina que, antes que uma pessoa escolha Cristo, seu coração precisa ser mudado. Ela precisa nascer de novo. As visões não reformadas ensinam que as pessoas decaídas primeiro escolhem Cristo e depois nascem de novo. Aqui encontramos pessoas não regeneradas vendo e entrando no Reino de Deus. No momento em que uma pessoa recebe Cristo, ela está no reino. Não é primeiro crer, e depois se tornar renascido, e então ser introduzido no reino. 


Como pode um homem escolher um reino que não pode ver? Como pode um homem entrar no reino sem primeiro ser renascido? Jesus estava apontando para a necessidade de Nicodemos de ser nascido do Espírito. Ele estava na carne. A carne produz somente carne. A carne, disse Jesus, não tem nenhum proveito. Como Lutero argumentava: "Isso não significa pouca coisa". As visões não reformadas mostram pessoas respondendo a Cristo sem serem renascidas. Estão ainda na carne. Para as visões não reformadas, a carne não só tem algum proveito, como tem o proveito da coisa mais importante que uma pessoa poderia ganhar — a entrada no reino através de crer em Cristo. Se uma pessoa que ainda está na carne, que ainda não é renascida pelo poder do Espírito Santo, pode inclinar-se ou dispor-se a Cristo, para que o renascimento? Esta é a falha fatal das visões não reformadas. Elas falham em levar a sério a incapacidade moral do homem, a impotência moral da carne.

Um ponto cardeal da teologia reformada é a máxima: "A regeneração precede à fé". Nossa natureza é tão corrupta, o poder do pecado é tão grande que, a menos que Deus faça uma obra sobrenatural em nossas almas, nunca vamos escolher Cristo. Não cremos para sermos nascidos de novo; somos nascidos de novo para que possamos crer.

É irônico que no mesmo capítulo, aliás no mesmo contexto no qual nosso Salvador ensina a absoluta necessidade do renascimento, até mesmo para ver o reino, e quanto mais para escolhê-lo, as visões reformadas encontram uma de suas principais provas para argumentar que o homem decaído conserva uma pequena ilha de habilidade para escolher Cristo. E João 3.16: "...Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna".

O que este famoso versículo ensina a respeito da capacidade que o homem decaído tem de escolher Cristo? A resposta, simplesmente, é nada. O argumento usado pelos não reformados é que o texto ensina que todas as pessoas no mundo têm em seu poder aceitar ou rejeitar Cristo. Uma olhada cuidadosa no texto revela, contudo, que ele não ensina nada desse tipo. O que o texto ensina é que todo o que crê em Cristo será salvo. Quem fizer A (crer) receberá B (vida eterna). O texto não diz nada, absolutamente nada, sobre quem vai crer. Não diz nada sobre a capacidade moral natural do homem decaído. Os reformados e os não-reformados crêem, ambos, de coração, que todos os que crerem serão salvos. Eles discordam, de coração, sobre quem tem a capacidade de escolher.

Alguns podem responder: "Tudo bem. O texto não ensina explicitamente que os homens decaídos têm a capacidade de escolher Cristo sem ser primeiro renascidos, mas isto certamente está implícito". Não estou querendo conceder que o texto chegue mesmo a ter tal coisa implícita. Contudo, mesmo que tivesse, não faria nenhuma diferença no debate. Por que não? Nossa regra para interpretar a Escritura é que as implicações extraídas da Escritura precisam sempre estar subordinadas aos ensinamentos explícitos dela. Não devemos nunca, nunca, nunca, reverter isto e subordinar os ensinamentos explícitos da Escritura a possíveis implicações extraídas dela. Esta regra é compartilhada tanto pelos pensadores reformados como pelos não reformados.

Se João 3.16 implicasse numa capacidade humana natural universal do homem decaído para escolher Cristo, então essa implicação seria varrida pelo ensinamento contrário explícito de Jesus. Já temos mostrado que Jesus explicitamente e sem ambiguidade ensinou que nenhum homem tem a capacidade de vir a Ele sem que Deus faça alguma coisa para dar-lhe essa capacidade, atraindo-o.

O homem decaído é carne. Na carne ele não pode fazer nada para agradar a Deus. Paulo declara: "Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Porquanto o que está na carne não pode agradar a Deus" (Rm 8.7,8).

Perguntamos então: "Quem são aqueles que estão na carne?" Paulo continua declarando: "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós..." (Rm 8.9). A palavra crucial aqui é "se". O que distingue aqueles que estão na carne daqueles que não estão é a habitação interior do Espírito Santo. Ninguém que não é renascido é habitado interiormente por Deus o Espírito Santo. Pessoas que estão na carne não foram renascidas. A menos que sejam primeiro renascidas, nascidas do Espírito Santo, elas não podem estar sujeitas à lei de Deus. Não podem agradar a Deus.

Deus nos ordena que creiamos em Cristo. Ele se agrada daqueles que escolhem Cristo. Se pessoas não regeneradas pudessem escolher Cristo, então elas poderiam estar sujeitas a pelo menos uma das ordens de Deus, e poderiam ao menos fazer alguma coisa que fosse agradável a Deus. Se fosse assim, então o apóstolo teria errado aqui ao insistir que aqueles que estão na carne não podem nem estar sujeitos a Deus nem agradá-lo.

Concluímos que o homem decaído é ainda livre para escolher o que deseja, mas, porque seus sentimentos são maus, falta-lhe a capacidade moral de vir a Cristo. Enquanto ele permanecer na carne, não regenerado, nunca escolherá Cristo. Ele não pode escolher Cristo precisamente porque não pode agir contra sua própria vontade. Ele não tem desejo por Cristo. Ele não pode escolher o que não deseja. Sua queda é grande. É tão grande que somente a graça efetiva de Deus operando em seu coração pode trazê-lo à fé.


RESUMO DO CAPÍTULO 3

1. O livre-arbítrio é definido como a "capacidade de fazer escolhas de acordo com nossos desejos."

2. O conceito de "vontade neutra livre", uma vontade sem disposições e inclinações anteriores, é uma visão falsa do livrearbítrio. E tanto irracional quanto antibíblica.

3. O verdadeiro livre-arbítrio envolve um tipo de autodeterminação, que difere da coação por uma força externa.

4. Lutamos com escolhas, em parte porque vivemos com desejos conflitantes e mutantes.

5. O homem decaído tem a capacidade natural de fazer escolhas, mas falta-lhe a capacidade moral de fazer escolhas santas.

6. O homem decaído, como disse Santo Agostinho, tem "livre-arbítrio", mas falta-lhe "liberdade".

7. O pecado original não é o primeiro pecado, mas a condição pecaminosa que é o resultado do pecado de Adão e Eva.

8. O homem decaído é "incapaz de não pecar."

9. Jesus ensinou que o homem não tem poder para vir a Ele sem ajuda divina.

10. Para que uma pessoa escolha Jesus, ela precisa primeiro ser nascida de novo.

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Fonte: Eleitos de Deus, R.C. Sproul, cap. 3, Ed. Cultura Cristã

Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org






CALVINO 500 ANOS

CALVINO: 500 ANOS

Este ano completam-se 500 anos do nascimento de João Calvino.


Um dos homens que mais influenciou a história do ocidente, que impulsionou toda uma reforma da vida cristã e que também foi um dos mais criticados e injustiçados de todos os tempos.


Chamado de capitalista, tirano de Genebra e de herege, é curiosamente um dos autores menos estudados e lidos. A grande maioria das críticas a ele dirigidas parte de consultas feitas em obras de ataque à suas idéias e, misteriosamente, conta-se “nos dedos” aqueles que realmente leram com honestidade suas obras.


Temos o exemplo do crítico que odeia Calvino por ser capitalista, pois escutou de seu amigo, que leu Max Weber, que criticou Calvino, que o reformador era na verdade um capitalista maldito que só pensava em dinheiro. Mas o crítico jamais pensou em estudar as Institutas Cristãs ou de se informar sobre a biografia do mesmo.


Temos os críticos de sua época que inventavam detalhes escandalosos sobre sua vida, e creditavam a Calvino um poder tirânico que ele próprio jamais teve. Lembra-se dos julgamentos e fogueiras de Genebra, e somente Calvino é culpado, ao passo que todas suas obras sociais e seus avanços teológicos e educacionais são suprimidos.


Temos os que chamam Calvino de herege, de rebelde, sem estudar a fundo suas influências e os incríveis paralelos de sua obra teológica com os mais antigos exemplos de cristãos. Simplesmente desprezam-se as doutrinas que Calvino enfatizou e os grandes problemas de sua época, para taxar seus escritos de “protestantes”.


Mas ainda há um pouco de honestidade e interesse genuíno à vista. Volta a crescer no Brasil e no mundo o movimento cristão denominado “reformado”. Caracterizados pela fidelidade às Escrituras, estudiosos cristãos reformados interpretam a Bíblia de uma forma mais integral e coerente, compatíveis com a Teologia proposta por Calvino e por inúmeros estudiosos da época da Reforma e do passado remoto do Cristianismo.


E é neste ressurgimento reformado, que se destaca cada vez mais em meio aos evangélicos, onde uma leitura cuidadosa das obras reformadas volta a acontecer. A obra mais conhecida de Calvino já tem três edições nacionais recentemente publicadas, traduzidas de seus escritos em francês e em latim (Institutas da Fé Cristã).


Um livro que detalha a biografia de Calvino é o de Allister McGrath (A Vida de João Calvino), disponível pela Casa Editora Presbiteriana do Brasil, e pode ser uma fonte de estudos iniciais muito interessantes para quem quer realmente ter uma visão crítica e ampla de quem foi Calvino e do que ele fez.


Se o interesse for Teologia Reformada, a Igreja Presbiteriana do Brasil disponibiliza gratuitamente em sua página da Internet a “Confissão de Fé de Westminster”, onde os principais preceitos do Cristão Reformado são expostos e exemplificados com trechos das Escrituras.


Mas a propaganda negativa continuará com certeza, e os evangélicos brasileiros continuarão sendo satirizados pelos exemplos mais tristes e degradantes do que um religioso pode se tornar. Na cabeçinha oca e desinformada ainda persiste aquela imagem do protestante alienado ao lado do pastor ambicioso; e do católico adorador de imagens ao lado do padre pedófilo ou anti-semita.


Para começar uma breve leitura, sugiro o artigo publicado no site "O Tempora, O Mores":




Por: Hélio angotti



Charles Haddon Spurgeon - Livre Arbitrio




calvin

A relação entre João Calvino e o desenvolvimento das ciências modernas

Por Wilson Porte Jr.


O mundo ocidental vive um grande avanço científico. Não é necessário muito esforço para percebermos o quanto estamos ligados e somos influenciados pelo avanço nas áreas da física, da química, da biologia, da medicina, dentre outras.
As origens do moderno avanço das ciências naturais são um tanto complexas e controversas. Há, atualmente, teorias que se esforçam para apresentar um único fator que controla todo esse desenvolvimento científico. Todavia, tais teorias são tomadas pela grande maioria dos historiadores como ambiciosas e inconvincentes. Como afirmou Alister McGrath, teólogo e apologista inglês, tentar argumentar que a origem do grande desenvolvimento das ciências reside em apenas um fator ou pessoa é exagero e desonesto com a história.
Está claro que muitos são os fatores que contribuíram para o avanço das ciências modernas. Dentre eles está o fator religioso que, inquestionavelmente, esteve envolvido. E é dentro desse fator que João Calvino (1509-1564) se destaca tanto removendo obstáculos “religiosos” que impediam o avanço das ciências naturais quanto encorajando o estudo científico da natureza.  Sem dúvida, muitas são as origens do moderno avanço científico. E muitos estão plenamente convencidos de que Calvino teve um papel fundamental para que chegássemos àquilo que hoje se vê, ainda que, ele mesmo, não tenha atuado em nenhuma ciência natural. Portanto, o foco deste artigo é analisar a estreita e intrínseca relação entre João Calvino e o desenvolvimento das ciências modernas.
CALVINO E O ENCORAJAMENTO AO ESTUDO CIENTÍFICO DA NATUREZA UM ERRO HISTÓRICO
Como já dissemos, João Calvino foi um dos grandes fatores que ajudaram no desenvolvimento das ciências naturais. Além de remover grande parte dos obstáculos que impediam tal progresso, Calvino e seus seguidores foram grandes encorajadores do estudo científico sobre a natureza. A imagem que hoje se tem de João Calvino infelizmente não corresponde a muitos dos fatos. A imagem de um homem que não dava margem a nada que não fosse intolerância e biblicismo tem sido passada de maneira pouco cuidadosa. 
O professor R. Hooykaas, em sua obra A religião e o desenvolvimento da ciência moderna, diz que o preconceito cegou os historiógrafos.1 É comumente aceito entre eruditos historiadores, como o professor R. Hooykaas da Universidade de Utrecht e Alister McGrath da Universidade de Oxford, que o polêmico livro de Andrew Dickson White, A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom(Londres, 1896) é responsável por boa parte da controvérsia atual. McGrath, no prefácio de seu livro A life of John Calvin, diz que “nos últimos cem anos, a atitude de Calvino com relação à teoria heliocêntrica do sistema solar de Copérnico2 tem sido objeto de ridículo”.3Andrew Dickson White, citado acima, escreveu:
Calvino assumiu a liderança em seu Comentário de Gênesis, condenando todos os que asseveram que a Terra não está no centro do universo. Ele decidia o assunto com sua habitual referência ao primeiro verso do Salmo 93, perguntando: ‘Quem ousará colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo?’4
White, por sua vez, copiou tal equívoco de declarações fictícias dos escritos de Frederick William Farrar5(1831-1903), deão anglicano de Canterbury. A declaração de Farrar, repetida por White, tem sido amplamente repetida em livros, artigos e ensaios que tratam do tema “religião e ciência”, como Bertrand Russell em sua History of Western Philosophy.6  Apesar de essa lenda ser tão bem aceita, ela não passa de ficção, uma vez que João Calvino nunca mencionou tais palavras, nem jamais citou Copérnico em seus escritos conhecidos. É um fato triste da história que Calvino tenha sido adulterado e distorcido tão grosseiramente. É lamentável que permaneça aceito que Calvino, e consequentemente o calvinismo, tenham sido hostis contra o desenvolvimento das ciências naturais. De fato, a história é bem diferente, como avaliaremos a seguir.
A HISTÓRIA NÃO CONTADA
O fato é que Calvino encorajou amplamente o estudo científico da natureza em seus dias. Não só ele, mas também seus discípulos mantiveram a mesma atitude nos anos que seguem à morte do reformador genebrino. Em suas Institutas, Calvino diz:
Inumeráveis são, tanto no céu quanto na terra, as evidências que lhe atestam a mirífica sabedoria. Não apenas aquelas coisas mais recônditas, a cuja penetrante observação se destinam a astronomia, a medicina e toda a ciência natural, senão também aquelas que saltam à vista a qualquer um, ainda o mais inculto e ignorante, de sorte que nem mesmo podem abrir os olhos e já se veem forçados a ser-lhes testemunhas.7
Calvino, portanto, aprova e confia, em certa medida, tanto na astronomia quanto na medicina. McGrath afirma que, de fato, Calvino confessa nessas palavras das Institutas certo tipo de ciúmes daquelas ciências naturais8 por serem capazes de provar de modo mais profundo (no mundo natural) o método e a regularidade da criação, além da sabedoria de seu Criador. Sustenta-se, portanto, que Calvino deu um impulso religioso fundamental para a o desenvolvimento das ciências. Em seus dias, tais legitimações sobre a investigação da medicina e da astronomia desanuviou o caminho para o avanço científico. É possível ver a influência de Calvino sobre seus discípulos no que tange ao encorajamento à pesquisa científica. A Confissão de Fé Belga (que, segundo McGrath,9 exerceu particular influência nos Países Baixos) foi grandemente influenciada pela teologia de Calvino. E foi nessa região, onde ela exerceu maior influência, que, coincidência ou não, produziu-se um número notável de físicos e botânicos. Nessa confissão de fé, no artigo 2 (Como conhecemos a Deus), lê-se assim:
… visto que o mundo, perante nossos olhos, é como um livro formoso, em que todas as criaturas, grandes e pequenas, servem de letras que nos fazem contemplar ‘os atributos invisíveis de Deus’, isto é, ‘o seu eterno poder e a sua divindade’, como diz o apóstolo Paulo em Romanos 1.20: Todos estes atributos são suficientes para convencer os homens e torná-los indesculpáveis.10
Em outras palavras, Deus pode ser conhecido através de um estudo detalhado e minucioso de sua criação. E é impressionante, como já fora posto acima, a influência que esta confissão de fé teve sobre físicos e botânicos da região dos Países Baixos. Em outras duas passagens das Institutas, Calvino aprofunda um pouco mais a questão. Ele mostra como toda a criação não passa de um grande teatro que nos serve para revelar a glória de Deus:
Portanto, por mais que ao homem, com sério propósito, convenha volver os olhos a considerar as obras de Deus, uma vez que foi colocado neste esplendíssimo teatro para que fosse seu espectador, todavia, para que fruísse maior proveito, convém-lhe, sobretudo, inclinar os ouvidos à Palavra.11 Entrementes, não hesitemos em colher piedoso deleite das obras de Deus manifestas e patentes neste formosíssimo teatro. Pois, como o dissemos em outro lugar, embora não seja a evidência primordial à fé, contudo na ordem da natureza esta é a primeira: para onde quer que volvamos os olhos em derredor, devemos ter em mente que todas as coisas que nossos olhos divisam são obras de Deus, e ao mesmo tempo devemos refletir, em piedosa consideração, a que fim foram por Deus criadas.12
Nestes textos, Calvino claramente sugere que toda a natureza se posta ante os seres humanos como um formosíssimo teatro, ou, um teatro da glória de Deus. A humanidade é quem aprecia esse teatro, e o estuda também. O professor Alister McGrath, da Universidade de Oxford, afirma que estas ideias foram tomadas com grande entusiasmo pela Royal Society, a organização mais importante devotada ao avanço da pesquisa e ensino científicos na Inglaterra. Segundo McGrath, muitos de seus primeiros membros foram admiradores de João Calvino, familiarizados com seus escritos e sua relevância para os campos de estudo daqueles.13
 Interessante como o próprio Sir Isaac Newton (1643-1727), cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático, embora tenha sido também astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo, em sua correspondência com Richard Bentley (1662-1742) escreva sobre sua alegria em poder demonstrar evidência de design na regularidade do universo em sua obra de 1687, Principia Mathematica. Segundo McGrath, há nessas cartas claras alusões à referência de Calvino ao universo como “teatro da glória de Deus” onde todos nós podemos, como audiência, apreciá-lo e aprender dele.14 
O que se percebe lendo Calvino e aqueles que por ele foram influenciados é que, o estudo de toda a criação, seja por meio da medicina, ou da astronomia, ou da botânica, etc., conduz a humanidade a um aumento consciente da sabedoria daquele que criou todas as coisas visíveis e invisíveis. Na visão do Dr. Abraham Kuyper (1837-1920),15 homem profundamente familiarizado com os escritos de João Calvino, o calvinismo não pôde fazer outra coisa na história ‘senão encorajar o amor pela ciência’.16 
Portanto, Calvino não só encorajou e legitimou a busca pelo conhecimento da sabedoria do Criador através das pesquisas científicas feitas pelos estudiosos das ciências naturais, como também eliminou muitos obstáculos dentro da própria religião que obstruíam tal avanço.
CALVINO E A REMOÇÃO DOS OBSTÁCULOS QUE IMPEDIAM O DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS NATURAIS A “GRAÇA COMUM” E A LUZ DA CIÊNCIA SOBRE OS PAGÃOS
Indubitavelmente, além de encorajar o desenvolvimento das ciências naturais, João Calvino buscou remover muitos obstáculos que impediam o avanço das pesquisas culturais em seus dias. Seu conceito a respeito da graça comum ajudou a esclarecer muitas coisas além de remover outras que impediam o avanço do conhecimento. Para ele, o Espírito Santo exercia influência comum sobre os homens em geral. A isso ele chamava de graça comum. Diante de eleitos e réprobos, Deus exercia uma atitude favorável que se observa nas concessões necessária à sobrevivência (chuva, sol, alimento, abrigo, etc.) a todos. Assim ele diz nasInstitutas:
Quantas vezes, pois, entramos em contato com escritores profanos, somos advertidos por essa luz da verdade que neles esplende admirável, de que a mente do homem, quanto possível decaída e pervertida de sua integridade, no entanto é ainda agora vestida e adornada de excelentes dons divinos. Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.17
João Calvino foi um humanista extremamente talentoso e realista. Por conta disso, o professor R. Hooykaas argumenta que Calvino jamais diria que a Queda teria “levado o homem a uma total depravação no campo científico”.18 Ao contrário, Calvino via a graça comum de Deus sobre os pagãos manifestando-se no fato de que Deus concede dons a eles e assim os capacita a encontrar a verdade em suas pesquisas e escritos científicos. Segundo o professor Hermisten M. P. da Costa, “Calvino dispunha de uma visão ampla da cultura, entendendo que Deus é Senhor de todas as coisas; por isso, toda verdade é verdade de Deus”.19 
Para Costa, era sobre o conceito da graça comum, ou graça geral, que essa perspectiva de Deus sobre os pagãos se ampara. Em seu comentário do livro de Gênesis, Calvino expõe claramente a graça comum. Ao mostrar Deus dando dons à amaldiçoada descendência de Caim (comentário de Gn 4), Calvino diz: “verdadeiramente é maravilhoso que esta raça que tinha caído profundamente de sua integridade superaria o resto da posteridade de Adão com raros dons”.20 O texto que Calvino comenta é o seguinte:
E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. O nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. A Zila também nasceu um filho, Tubal-Caim, fabricante de todo instrumento cortante de cobre e de ferro; e a irmã de Tubal-Caim foi Naama. (Gn 4.20-22)21
De modo que, para Calvino, foi a graça (comum) de Deus que permitiu a invenção das artes e de outras coisas úteis para a vida presente. Contudo, embora Calvino visse a graça de Deus sobre pagãos sendo derramada com a finalidade de que estes tivessem habilidades para criar e também para descobrir cientificamente detalhes da criação, de longe o Livro Sagrado preocupava-se em ser um repositório de informações científicas. 
Hooykaas cita o comentário de Calvino ao texto de Gênesis 1.15: “A Bíblia era, portanto, um ‘livro para leigos’”; “aquele que desejasse aprender astronomia, ou outras artes recônditas, que fosse a outros lugares”.22 Com isso em mente, Calvino desafiou a muitos dentro da própria igreja que tinham a Bíblia como um verdadeiro livro-texto sobre ciências. Ele removeu tal ideia provando ser a Bíblia um livro que não se preocupava com ciências naturais, mas com o conhecimento de Jesus Cristo.
A BÍBLIA NÃO É UM REPOSITÓRIO DE CIÊNCIAS NATURAIS
Quando afirmamos que João Calvino contribuiu grandemente para o desenvolvimento das ciências modernas, assim fazemos pelo fato de ele ter lidado de maneira honesta com o literalismo bíblico. Até então ensinava-se a olhar para as Escrituras como um livro científico (além de religioso). Cria-se que a Bíblia tratava de detalhes da estrutura do universo, de modo que homens como Copérnico e Galileu, com suas teorias heliocêntricas, tiveram, em princípio, grandes problemas. A Igreja Católica Apostólica Romana ainda controlava a produção cultural e científica e defendia a teoria do geocentrismo (a Terra como centro do Universo). Galileu Galilei foi condenado pelo Santo Ofício por defender o heliocentrismo. Pouco antes de ser queimado na fogueira da Inquisição, negou essa teoria diante do tribunal tão somente para livrar-se de ser queimado, porém nunca deixou de acreditar nela nem de pesquisá-la. O grande problema de muitos que hoje lidam com o tema “religião e ciência” ainda reside no fato de querer encontrar na Bíblia um verdadeiro repositório de livros-texto sobre astronomia, geografia ou biologia.23 
A ênfase de João Calvino era de que a Bíblia trata fundamentalmente do conhecimento de Jesus Cristo. Alister McGrath comenta as palavras de Calvino no prefácio da tradução do Novo Testamento de Pierre Olivétan (1543), onde, segundo McGrath, Calvino remove o conceito, até então normal, de a Bíblia ser um repositório científico. Calvino disse em tal prefácio:
O ponto principal das Escrituras é trazer-nos a um conhecimento de Jesus Cristo… As Escrituras nos proveem com um espetáculo, através do qual nós podemos ver o mundo como a criação de Deus e sua autoexpressão; elas jamais pretenderam prover-nos com um repositório infalível de informações astronômicas e médicas.24
É deste modo que Calvino lança luz sobre uma opção melhor de interpretação das Escrituras. Não mais olhar para a Bíblia como um livro que se preocupa com a infalibilidade em assuntos geográficos, físicos, químicos, botânicos, astronômicos, dentre outros, mas como um livro que se preocupa em aumentar nosso conhecimento de quem é Jesus Cristo, o Deus-Filho. A Bíblia, na visão de João Calvino, quando cita algo relacionado hoje ao estudo das ciências naturais, o cita de forma acomodativa, dentro dos limites do conhecimento de então. É a isso que se chama de Teoria da Acomodação.
A TEORIA DA ACOMODAÇÃO
Calvino insistiu que nem tudo o que a Bíblia diz sobre Deus ou sobre o mundo deve ser tomado literalmente. De acordo com McGrath, Calvino desenvolveu uma sofisticada teoria relacionada sempre com o termo “acomodação”.25 A palavra “acomodação” aqui significa “ajustar ou adaptar a fim de encontrar as necessidades da situação e da habilidade humana para compreendê-lo”. Alister McGrath diz que “Deus pinta um quadro de si mesmo que nós somos capazes de entender”.26 Em outra obra, McGrath diz que a teoria da acomodação, de Calvino, resume-se em:
Deus, ao se revelar a nós, acomodou-se aos nossos níveis de entendimento e às nossas preferências naturais por meios ilustrativos de compreendê-lo. Deus se revela, não como ele é em si mesmo, mas em formas adaptadas à nossa capacidade humana. Assim, a Bíblia fala de Deus tendo braços, boca, e assim por diante – mas essas são apenas metáforas vivas e memoráveis, apropriadas de maneira ideal às nossas habilidades intelectuais. Deus se revela de formas adequadas, convenientes às habilidades e situações daqueles para quem a revelação foi originalmente dada.27
Nessas palavras, McGrath sintetiza o pensamento de Calvino sobre a maneira como Deus escolheu para se revelar aos homens: uma linguagem acomodada à ciência de então. Não uma linguagem cientificamente exata, mas, como já dito, adaptada. Ao analisarmos outras fontes percebemos o quanto isso influenciou cientistas dos séculos XVI e XVII. 
O professor Hooykaas, em A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, argumenta como a teoria da acomodação, de Calvino, influenciou seguidores de Copérnico nos países protestantes. Tais homens eram astrônomos, preocupados com o desenvolvimento da teoria do heliocentrismo, condenada pela igreja romana de então. O escritor inglês Edward Wright (1558?-1615), ao prefaciar De Magnete, de William Gilbert (1600), utilizou argumentos que vêm diretamente de João Calvino. Naquele prefácio, Wright defende a teoria heliocêntrica afirmando que ela, ao contrário do que se dizia em meios eclesiásticos, não se chocava em ponto algum com as Escrituras Sagradas. 
No já referido texto, Wright usa a teoria da acomodação, de Calvino, para argumentar contra os literalistas bíblicos que levantavam objeções contra sua teoria. Seu argumento, segundo Hooykaas, foi dizer que “nem Moisés, nem os profetas, tiveram a intenção de divulgar sutilezas físicas e matemáticas e, portanto, não entraram em minúcias supérfluas”.28  Wright escreveu: “Moisés acomodou-se ao entendimento e à maneira de falar das pessoas comuns, como fazem as amas com as criancinhas”.29  Essa é a mesma figura usada por João Calvino ao expor o versículo 7 do salmo 136. Lá, Calvino diz que:
O Espírito Santo não possuía intenção alguma de ensinar astronomia… O Espírito Santo escolhe se adaptar e se comunicar conosco como que balbuciando, ao invés de bloquear o caminho do conhecimento às pessoas rudes e incultas.30
Tanto João Calvino como seus discípulos defenderam a teoria da acomodação que, usando de linguagem simples para falar a um povo simples, permitiu-se a alguns erros vulgares.31 Tais erros foram permitidos com o fim de o Espírito transmitir sua mensagem espiritual para o povo. É a isso que Calvino chama de balbuciar do Espírito. Wright foi, sem dúvida alguma, influenciado por Calvino. Por isso, escreve de modo tão semelhante a ele quando trata do balbuciar do Espírito. Ninguém é capaz de negar o quanto João Calvino influenciou pessoas em seus dias com a teoria da acomodação. Sua mudança de foco na interpretação da Bíblia Sagrada incentivou grande número de cientistas à pesquisa, sobretudo nos países protestantes. Outro astrônomo famoso, também calvinista convicto, foi Philips van Lansbergen (1561-1632). Lansbergen foi, também, um ministro protestante. Ele foi ‘o mais zeloso propagador do copernicanismo nos Países Baixos’.32 Hooykaas, citando um comentário do próprio van Lansbergen da epístola de Paulo a Timóteo em 2Tm 3.16, escreve que a Bíblia não fala sobre assuntos astronômicos:
…segundo a situação real, mas segundo as aparências… A Escritura foi-nos outorgada por inspiração de Deus, e deve ser usada para doutrina, exprobração, correção, e para o exercício da probidade, mas não é própria para o ensino da geometria e da astronomia.33
Outro grande nome na história da ciência é o de Johannes Kepler. Kepler foi um adepto de Copérnico. Teve por mestre Michael Mastlin, um teólogo-astrônomo. Em certa altura de sua vida, Kepler foi acusado de ser cripto-calvinista. E é nesse momento que o vemos citando Calvino. Em sua obra Astronomia Nova(1609), logo na introdução, Kepler lembra muito Calvino ao dizer:
As Sagradas Escrituras falam sobre coisas comuns (no ensino daquilo para o qual elas não foram instituídas) a criaturas humanas, numa maneira humana, para que possam ser compreendidas pela humanidade; elas usam o que geralmente é reconhecido pelas pessoas, a fim de fazê-las entender outras coisas, mais elevadas e divinas.34
De modo que aqui, mais uma vez, se constata os efeitos libertadores dos escritos de João Calvino. Ele realmente removeu obstáculos para o desenvolvimento das ciências modernas. Não fosse a honestidade de Calvino, sem falar de toda a sua dedicação em buscar no texto bíblico o seu real significado, possivelmente ainda hoje estaríamos todos em muitas trevas de ignorância. Embora Calvino não estivesse tão preocupado com o avanço do conhecimento científico quanto com o avanço do conhecimento de Jesus Cristo, é inegável e, por que não falarmos irrefutável, a preciosidade da contribuição de João Calvino para o desenvolvimento das ciências modernas. Tal ênfase de Calvino pode ser percebida na citação do professor Hermisten Costa em seu livro Calvino de A a Z.35
 Neste livro (no verbete ciência), Costa faz menção às palavras de Calvino ao comentar o texto bíblico de 1Corintios 1.20 “Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?”.36 No comentário desse texto Calvino diz: “O conhecimento de todas as ciências não passa de fumaça quando separado da ciência celestial de Cristo”.37 
Portanto, para o reformador genebrino que, segundo Thea B. Van Halsema, fora um homem humilde que viveu sob o lema Soli Deo Gloria,38 nada se compararia ao estudo e ciência de quem foi e é Jesus Cristo. Todavia, seus olhos não estavam fechados para o que acontecia em seu tempo. E foi sua honestidade e acuidade em lidar com as Escrituras Sagradas que permitiram-lhe ser um dos muitos fatores que contribuíram para o desenvolvimento das ciências modernas, eliminando um obstáculo significativo ao avanço das ciências naturais: o literalismo bíblico. 
CONCLUSÃO
 Podemos concluir afirmando que, na relação entre João Calvino e o desenvolvimento das ciências modernas, há elos muito próximos e intrínsecos. Costa afirma que “a visão teológica de Calvino permeada pela soberania de Deus, fez com que ele procurasse relacionar a aplicação desta soberania às diversas atividades culturais do ser humano”,39 ou seja, Calvino entendia que as ciências e as humanidades deveriam ser usadas para a glória de Deus. Mesmo a despeito de tantos erros de historiadores, ainda hoje se pode constatar em fontes primárias o quanto João Calvino encorajou o desenvolvimento das ciências naturais em seus dias. 
A influência de Calvino é impressionante. Como avaliações após avaliações indicam, tanto as ciências físicas quanto as biológicas foram dominadas por calvinistas durante os séculos dezesseis e dezessete.40 Isso se deve aos obstáculos removidos por João Calvino em suas Institutas da Religião Cristã, em seus comentários dos livros da Bíblia, em seus sermões, em suas correspondências e em prefácios escritos por ele. De fato, Calvino encorajou o avanço das pesquisas científicas e permaneceu tal como um espectador “ciumento”, atento às descobertas de cientistas da astronomia e da medicina, como alguém que desejava conhecer a sabedoria do Criador por meio dos dons dados por ele, ainda que para homens ímpios (graça comum). Mas não só encorajou, removeu obstáculos que impediam tal avanço. De modo brilhante e inédito quebrou paradigmas, lançou luz sobre as Escrituras e nisso também influenciou uma avalanche de pesquisadores em alguns países na Europa.
 Alister McGrath faz uma boa reflexão sobre como seria hoje se Calvino ainda tivesse tanta influência sobre o debate religião e ciências. O fato é que, desde o século dezenove, esses dois tópicos têm travado uma batalha mortal. Dentro de nossa cultura ocidental, alguns escritores desonestos e desinformados têm atribuído a Calvino e seus seguidores a culpa por tal dilema, quando, na verdade, para Calvino não existia dilema algum. Esta especulação de McGrath sobre como seria o debate evolucionista se hoje Calvino ainda tivesse grande influência, não passa de um mero raciocínio abstrato. De fato, o que hoje sabemos e podemos afirmar é que as ideias e influência de João Calvino exerceram um grande impulso religioso que resultou na rápida expansão das ciências naturais nos séculos dezesseis e seguintes.



Por Alderi Souza de Matos

A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.

Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um "espírito capitalista" que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo "no mundo" caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.

Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: "Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente" (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661). Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo.

Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.

Extraído do site: BEREIANOS 





Predestinação


É verdade que controvérsias teológicas sobre a "Predestinação" têm causado grande confusão na vida religiosa de muitos cristãos. Devemos saber o que deu origem a isto.

Na Bíblia, há muitas passagens que poderiam ser interpretadas como indicadoras de que a fortuna ou a desgraça, a felicidade ou o sofrimento de qualquer indivíduo, assim como a salvação ou condenação dos homens decaídos, e a ascensão e queda das nações, ocorressem de acordo com a predestinação de Deus. Por exemplo, a Bíblia diz:

"Aos que predestinou a estes também chamou e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." (Rm 8.30)

Diz-se também:

"Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende daquele que quer, nem do que se esforça, mas de Deus, que compadece." (Rm 9.15-16).

Diz-se outrossim (Rm 9.21): "Não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?" Além disto, diz-se (Rm 9.11) que Deus amou Jacó e odiou Esaú enquanto ainda estavam no útero da mãe, e disse que o mais velho serviria ao mais jovem.

Deste modo, há ampla fundamentação bíblica para justificar a "predestinação completa". No entanto não devemos nos esquecer que há também muitas passagens bíblicas que negam a predestinação completa. Por exemplo, quando vemos que Deus advertiu aos primeiros antepassados humanos que não comessem do fruto (Gn 2.17) a fim de evitar que caíssem, é evidente que a queda do homem não foi a predestinação de Deus, senão o resultado da desobediência do homem ao mandamento de Deus. Lemos também (Gn 6.6) que Deus se arrependeu de ter posto o homem na Terra. Se o homem tivesse caído de acordo com a predestinação de Deus, não haveria motivo algum para que Ele sentisse pesar por ter criado o homem, cuja queda Ele teria predestinado. João 3.16 diz que todo aquele que crer em Jesus não perecerá.

Quando lemos em Mateus 7.7: "Pedi, e vos será dado; buscai, e encontrareis; batei, e vos será aberto", podemos compreender claramente que todas as coisas não se realizam simplesmente pela predestinação de Deus, senão pelo esforço humano. Se todas as coisas devem ser realizadas somente pela predestinação de Deus, por que Deus enfatizou os esforços humanos? Além disso, quando lemos que devemos orar pelos irmãos enfermos (Tg 5.14), podemos compreender que o sofrimento devido à enfermidade não existe pela predestinação de Deus. Se todas as coisas fossem inevitavelmente decididas pela predestinação de Deus, não haveria necessidade alguma de orações lacrimosas do homem.

Se aceitarmos a crença tradicional da predestinação, as orações do homem, o evangelismo, a caridade e outros esforços humanos não teriam valor algum para a providência da restauração de Deus; e qualquer esforço desta espécie seria, afinal, inútil. Isto é assim porque a predestinação de Deus, que é absoluto, deve também ser absoluta, sem deixar lugar para mudança alguma devido ao esforço humano.

Já que existe suficiente fundamentação bíblica para justificar tanto a aprovação quanto a desaprovação da teoria da predestinação, são inevitáveis as controvérsias sobre a doutrina da predestinação. Como, então, o Princípio resolveria tais problemas? Investiguemos a questão da predestinação.

SEÇÃO I

Predestinação da Vontade

Primeiro, definamos "Vontade", antes de tratar sobre a predestinação da Vontade. Deus não pôde cumprir Sua finalidade da criação devido à queda humana. Por isto a vontade de Deus, ao operar Sua providência com homens decaídos, é cumprir Sua finalidade da criação. Em outras palavras, "Vontade" significa realização da finalidade da providência da restauração.

A seguir, devemos saber que Deus primeiro determina a vontade, e depois trabalha para cumpri-la. Depois de ter criado o homem, Deus fixou Sua vontade para cumprir a finalidade da criação; contudo, devido à queda do homem, Ele não conseguiu cumprir a vontade. Naturalmente, a fim de cumprí-la, Ele necessita determinar Sua vontade pela segunda vez e assim realizar a providência da restauração.

Deus predestinou a vontade para ser do bem, não do mal. Ele então trabalha para cumpri-la. Já que Deus é a essência do bem, Sua finalidade da criação deve também ser boa. Naturalmente, a finalidade de Sua providência da restauração deve ser boa e Sua vontade de cumprir esta finalidade deve também ser boa. Deus não poderia ter predestinado o que obstrui e vai contra a finalidade da criação. Assim, sabemos que Ele não poderia ter predeterminado tais coisas como a queda humana, o julgamento dos homens decaídos, ou a destruição do universo. 

Se tais maus resultados tivessem sido o produto necessário da predestinação de Deus, Ele não teria lamentado o mau resultado de Sua própria predestinação, e não poderíamos crer em Deus como sujeito de bondade. Deus, ao ver o homem decaído, arrependeu-Se de ter feito o homem na Terra (Gn 6.6); e, vendo a deslealdade do rei Saul, arrependeu-Se de tê-lo feito rei (I Sm 15.11). Isto demonstra que estes acontecimentos não foram resultados da predestinação de Deus. Estes resultados maus ocorrem por causa da falha do homem em cumprir sua própria porção de responsabilidade e por ele estar do lado de Satanás.

Até que grau Deus predetermina a vontade para cumprir Seu propósito da criação? Deus é o ser absoluto, único, eterno e imutável; o propósito divino da criação deve ser igual. Por conseguinte, a vontade da providência da restauração, que é cumprir a finalidade da criação, deve ser única, imutável e absoluta (Is 46.11). Deus predetermina a vontade para que seja absoluta; portanto, quando uma pessoa escolhida para a vontade não a cumpre, Deus deve prosseguir para cumpri-la, mesmo estabelecendo outra pessoa no lugar da que falhou.

Por exemplo, quando a vontade de Deus para realizar a finalidade da criação centralizando-se em Adão falhou, Ele enviou Jesus como o segundo Adão, procurando realizar a vontade centralizando-se nele, porque Sua predestinação da vontade era absoluta. Quando esta vontade resultou novamente em fracasso, devido à falta de fé do povo (cf. Parte I, Capítulo IV, Seção I, 2), Jesus prometeu que o Senhor viria e realizaria a Vontade sem falta (Mt 16.27). Também na família de Adão, Deus tinha a intenção de assentar o fundamento para receber o Messias, por meio de Sua providência centralizada em Caim e Abel.

Contudo, esta Vontade terminou em fracasso quando Caim matou Abel. Deus então Se propôs a cumprir Sua vontade por meio da família de Noé. Quando a família de Noé falhou em cumprir esta Vontade, Deus teve que estabelecer Abraão para realizar a Vontade. Em outra ocasião, Deus tentou realizar a Vontade, que Abel falhou em cumprir, estabelecendo Set (Gn 4.25). Ademais, procurou realizar a Vontade não cumprida por Moisés escolhendo Josué como seu substituto (Js 1.5); e, de novo, tentou completar a Vontade irrealizada devido à traição de Judas Iscariotes, elegendo Matias (At 1.15).

SEÇÃO II

Predestinação para o Cumprimento da Vontade

Como ficou esclarecido no "Princípio da Criação", a finalidade da criação de Deus deve ser realizada somente pelo cumprimento da porção de responsabilidade do homem. A vontade para a providência da restauração, que é realizar esta finalidade, sendo absoluta, não deve ser frustrada pelo homem. Contudo, o homem deve cumprir sua própria porção de responsabilidade, para que a Vontade se cumpra. Portanto, o propósito divino da criação devia cumprir-se somente realizando o homem sua porção de responsabilidade, não comendo do fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal (Gn 2.17).

Por conseguinte, mesmo ao realizar o propósito da providência da restauração, a Vontade pode cumprir-se somente por meio da realização da responsabilidade do homem pela figura central encarregada da missão. Nos dias de Jesus, o povo devia ter acreditado em Jesus de maneira absoluta, para que ele pudesse cumprir o propósito da providência da salvação. No entanto, devido à falta de fé, não puderam cumprir sua porção de responsabilidade e, por conseguinte, o cumprimento da Vontade teve que ser adiado até o dia do segundo advento.

Então, até que grau e extensão predeterminaria Deus o cumprimento da Vontade? Como foi mencionado, a vontade de Deus para cumprir a finalidade da providência da restauração é absoluta, mas o cumprimento da Vontade é relativo. Portanto, está predeterminado que a Vontade há de cumprir-se, mas somente através da junção dos 95 por cento de responsabilidade de Deus e os 5 por cento de responsabilidade do homem. O fato de se indicar a proporção da responsabilidade do homem como 5 por cento significa simplesmente que a responsabilidade do homem é extremamente pequena comparada com a de Deus. Não obstante, devemos compreender que, para o homem, isto significa 100 por cento de esforço.

Para citar exemplos: o cumprimento da Vontade centralizada em Adão e Eva foi predestinado para ser realizado mediante a realização da sua própria porção de responsabilidade, isto é, não comendo do fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal. A providência da restauração centralizada em Noé foi predestinada para ser cumprida mediante a realização de sua própria porção de responsabilidade, por meio da lealdade ao construir a arca. A providência da salvação por meio de Jesus foi predestinada para ser cumprida por meio da realização da responsabilidade por parte dos homens decaídos, crendo em Jesus como Messias e seguindo-o (Jo 3.16). Os homens causaram o prolongamento da providência divina de restauração não cumprindo sequer sua pequena quantia de responsabilidade.

A Bíblia diz: "A oração da fé salvará o enfermo" (Tg 5.15); "Tua fé te curou" (Mc 5.34); "Todo aquele que pede, recebe, e aquele que procura, encontra, e a quem bate, será aberto" (Mt 7.8). Todas estas passagens bíblicas demonstram que a Vontade está predestinada a ser cumprida pelo cumprimento da própria porção de responsabilidade do homem. Podemos compreender muito bem quão pequenas foram as responsabilidades das quais os homens se encarregaram em todos estes exemplos, comparadas com a porção responsável do trabalho e da graça de Deus.

Ao mesmo tempo, do fato de terem as figuras centrais na providência sido compelidas a causar o prolongamento da providência da restauração devido ao fracasso em cumprir sua porção de responsabilidade, podemos imaginar quão extraordinariamente difícil foi para elas cumprirem sequer uma responsabilidade relativamente pequena.

SEÇÃO III

Predestinação do Homem

Adão e Eva poderiam ter se tornado antepassados humanos bons se tivessem cumprido sua porção de responsabilidade, obedecendo a injunção divina de não comerem do fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, mas falharam em fazê-lo. Portanto, Deus não podia predestiná-los, de maneira absoluta, a serem antepassados humanos bons. No caso dos homens decaídos, um homem escolhido poderia tornar-se uma pessoa da predestinação de Deus somente cumprindo sua porção de responsabilidade. Portanto, Deus não pode predestinar uma determinada pessoa com absoluta certeza de que ela chegará a ser o que está predestinada a ser.

Então, até que grau Deus predestina o homem? Ao cumprir Sua vontade, centralizada em certa pessoa, Deus estabelece, como condição indispensável, que o homem deve realizar sua própria porção de responsabilidade. Por isso Deus, ao predestinar uma pessoa para certa missão, determina que a pessoa será o que está predestinada a ser somente mediante o cumprimento de 100 por cento da Vontade centralizada nessa pessoa, com o cumprimento conjunto dos 95 por cento da porção de responsabilidade de Deus e dos 5 por cento da porção de responsabilidade do homem. Portanto, quando a pessoa falha em cumprir sua própria porção de responsabilidade, não pode chegar a ser a pessoa que Deus predestinou.

Por exemplo, quando Deus escolheu Moisés, predestinou-o a ser um grande líder, capaz de levar o povo eleito à terra abençoada de Canaã, mas somente cumprindo sua porção de responsabilidade (Êx 3.10). Quando Moisés foi contra a vontade de Deus em Cades Barnea ferindo a rocha duas vezes, ele falhou em cumprir sua responsabilidade, anulando assim a predestinação de Deus; ele morreu a caminho do lugar designado (Nm 20.7-12, 20.24, 27.14). Do mesmo modo, quando Deus escolheu Judas Iscariotes, predestinou-o a ser apóstolo de Jesus se cumprisse sua porção de responsabilidade com lealdade. No entanto, visto que Judas falhou em cumprir sua responsabilidade, a predestinação de Deus não foi realizada, e Judas veio a tornar-se um traidor.

Quando Deus chamou o povo judeu, predestinou-o a ser a nação escolhida de glória, mas somente cumprindo sua porção de responsabilidade por meio de sua fé e serviço. Contudo, a predestinação não foi cumprida, porque eles entregaram Jesus para que fosse crucificado; e por isso a nação escolhida se dispersou.

A seguir, examinemos as condições e qualificativos para alguém chegar a ser a figura central da providência da restauração na predestinação de Deus. O propósito da providência da salvação de Deus é restaurar o mundo decaído ao mundo original da criação. Embora os tempos de salvação dos homens decaídos possam diferir, todos eles estão predestinados a ser salvos (II Pe 3.9). Tal como no processo de sua criação, a providência da salvação de Deus, que é a providência da recriação, não pode completar-se em um só momento. Por conseguinte, esta providência está gradualmente ampliando seu alcance para cobrir o todo, começando por "um". Assim, na predestinação da providência da salvação, Deus primeiro predestina a figura central e a chama para a missão.

Que condições e qualificativos deve ter esta figura central? Primeiro, deve ter nascido da nação escolhida, encarregada da providência da restauração. Depois, mesmo dentro da nação escolhida, deve ser descendente de antepassados com muitas realizações boas. Em seguida, embora seja descendente de antepassados com muitas realizações boas, deve ser dotada de uma adequada disposição natural para o cumprimento da Vontade. Mesmo que um homem tenha estas qualidades, deve, posteriormente, ter boas condições nas quais possa crescer e trabalhar durante sua vida. Contudo, mesmo dentre estas pessoas, Deus seleciona primeiro o indivíduo mais completamente preparado, no devido tempo e lugar, segundo a necessidade de Deus.

SEÇÃO IV

Elucidação de Versículos Bíblicos que Justificam a Teoria da Predestinação

Já esclarecemos muitas questões com respeito à predestinação de Deus. Contudo, o problema ainda a resolver é como elucidar os testemunhos bíblicos, tais como os citados na introdução deste capítulo, que estão escritos como se todas as coisas fossem absolutamente predestinadas por Deus.

Esclareçamos primeiramente a passagem bíblica de Romanos 8.29-30 que diz:

"Aqueles que dantes conheceu, também os predestinou...; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou."

Deus, que é onisciente, conheceu quem é dotado das qualidades para ser a figura central na providência da restauração (Seção III). Portanto, Deus predestina e chama a pessoa que Ele conheceu antes, a fim de realizar o propósito da providência da restauração. Chamar a pessoa é a porção de responsabilidade de Deus, mas somente isto não tem nada a ver com o fato de ser a pessoa justificada, e finalmente glorificada em Deus. A mesma deve cumprir sua própria responsabilidade, na posição da pessoa que foi chamada por Deus, antes que possa ser justificada; somente depois de ter sido justificada é que será glorificada por Deus. Está predestinado que o homem pode desfrutar da glória de Deus somente cumprindo sua porção de responsabilidade. Não há palavras tais como "a porção de responsabilidade do homem" na Bíblia, pelo que tudo parece ser realizado simplesmente pela predestinação absoluta de Deus.
A Bíblia diz (Rm 9.15-16):

"Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende daquele que quer, nem do que se esforça, mas de Deus, que se compadece."

Como está esclarecido mais acima, Deus escolhe alguém que está melhor preparado para o cumprimento do propósito da restauração, conhecendo de antemão todas as suas qualidades. Por isto é o privilégio de Deus escolher tal pessoa, e compadecer-Se ou ter misericórdia dele. Não depende do desejo ou do esforço do homem. Estes versículos bíblicos foram dados para pôr ênfase no poder e graça de Deus.
Diz também (Rm 9.21):

"Não tem o oleiro poder sobre o barro para, da mesma massa, fazer um vaso para honra e outro para desonra?"

Já foi dito que Deus fixou a porção de responsabilidade do homem como a condição para exaltá-lo à posição de senhor de toda a criação e para amá-lo mais, fazendo com que o homem siga o exemplo de Sua natureza criativa. Contudo, o homem caiu, tendo violado esta condição. Por isto, o homem transformou-se em uma existência desprezível, como lixo; portanto, este versículo foi dado para ensinar-nos que o homem não tem direito de queixar-se, seja qual for a forma que Deus trate os homens desta espécie. Além disto, a Bíblia diz (Rm 9.10-13) que "Deus amou a Jacó e aborreceu a Esaú", e que "o mais velho servirá ao mais moço". 

Qual deve ter sido a razão pela qual Deus amou Jacó e aborreceu Esaú, quando não haviam ainda nascido nem tinham feito nada de bem ou de mal? Era para cumprir o programa de Deus no curso da providência da restauração. Detalhes mais amplos serão discutidos na providência da restauração centralizada na família de Abraão (cf. Parte II, Capítulo I, Seção III). Devemos compreender nisto que Deus deu a Isaac filhos gêmeos, Esaú e Jacó, porque Ele tinha que restaurar por indenização a vontade para a restauração do direito de primogenitura, que tinha ficado sem cumprir com o assassinato de Abel por Caim na família de Adão. Ele se propôs a realizar isto, estabelecendo os irmãos gêmeos nas posições de Caim e Abel, e fazendo com que Jacó (na posição de Abel) obrigasse Esaú (na posição de Caim) a ceder. Deus disse isto porque Esaú, estando na posição de Caim, estava sujeito a ser odiado por Deus, enquanto Jacó, estando na posição de Abel, tinha direito ao Seu amor.

O fato de Deus amar um ou aborrecer outro dependia do cumprimento de suas respectivas porções de responsabilidade. De fato, Esaú, tendo se submetido por sua obediência a Jacó, recebeu uma bênção de amor igual à de Jacó, embora estivesse em uma posição suscetível de ser aborrecido por Deus. Por outro lado, Jacó, embora estivesse na posição de ser amado por Deus, não receberia tal amor se tivesse falhado no cumprimento da sua porção de responsabilidade.

Foi devido à ignorância acerca do relacionamento da porção de responsabilidade do homem com a de Deus, no cumprimento do propósito da providência da restauração, que apareceu um homem como Calvino, que defendeu com obstinação sua "teoria da predestinação’, e que tal teoria tem sido acreditada por tantas pessoas durante tanto tempo.










Autoria

Ao contrário do que muitos pensam, não foi João Calvino quem escreveu "Os Cinco Pontos do Calvinismo". Talvez algumas pessoas ficarão impressionadas com esta afirmação. No entanto, a magna pergunta que se faz é: Se não foi Calvino, quem foi então? Estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda_ e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suiça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões desde 13 de novembro de 1618 até maio de 1919. Portanto, peca por ignorância quem afirma ser João Calvino o autor destes cinco pontos, porque na verdade, a afirmação correta é que estes "pontos" foram fundamentados tão somente nas doutrinas ensinadas por ele. Aliás, este sistema doutrinário, se assim podemos chamá-lo, foi elaborado somente 54 anos após a morte do grande reformados (1509-1564).

Razão de sua Escrita

Os Cinco Pontos do Calvinismo foram formulados em resposta a um documento que ficou conhecido como "Remostrance" ou o mesmo que "Protesto", apresentado ao Estado da Holanda pelos "discípulos do professor de um seminário holandês chamado Jacob Hermann, cujo sobrenome latino era Arminius (1560-1600). Mesmo estando inserido na tradição reformada, Arminius tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era simpático aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem". Este documento formulado pelos discípulos de Arminius tinha como objetivo mudar os símbolos oficiais de doutrinas das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg), substituindo pelos ensinos do seu mestre. Desta forma, a única razão pela qual Os Cinco Pontos do Calvinismo foram elaborados era a de responder ao documento apresentado pelos discípulos de Arminius.

Por que Cinco Pontos?

Este documento formulado pelos alunos de Jacob Arminius tinha como teor cinco principais pontos, conhecidos como "Os Cinco Pontos do Arminianismo". Em resposta a este Cinco Pontos do Arminianismo, o Sínodo de Dort elaborou também o que conhecemos como "Os Cinco Pontos do Calvinismo". Estes pontos do calvinismo são conhecidos mundialmente pela palavra TULIP, uma sigla popular que na língua inglesa significa:


Conclusão

Diante disso, creio que a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume na palavra Soberania. Enquanto os calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do ser humano conforme a sua livre e soberana vontade, os arminianos salientam que o homem é capaz de por si só querer ou não ser salvo. Se partirmos da premissa que o homem está completamente morto diante de Deus como nos ensina Efésios 2.1, entendemos porque a salvação depende tão somente da graça e da misericórdia do SENHOR, pois "não depende de quem quer ou quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Rm 9.16). Portanto, creio que os objetivos deste artigo foram alcançados, demonstrando assim a verdadeira história dos "Cinco pontos do Calvinismo". Que assim, queira o Senhor nosso Deus nos abençoar e nos dar sempre a graça de sermos verdadeiros pregadores da história reformada.

"Cremos nos Cinco Grandes Pontos conhecidos como Calvinismo; mas não consideramos estes Cinco Pontos como dardos farpados que metemos entre as costelas dos nossos companheiros cristãos. Olhamos para esses Pontos como sendo eles Cinco Lâmpadas que ajudam a iluminar a cruz; ou, melhor, cinco brilhantes emanações que procedem da gloriosa aliança do nosso Deus Triúno, e ilustram a grande doutrina de Jesus crucificado.", Charles Haddon Spurgeon.








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